Efeito Dominó

- Cadastro, Sandoval, bom dia.

- PORRA, SANDOVAL, CÊ TÁ QUERENDO ME FODER?

- Er… não, eu nunca… senhor diretor? – pergunta Sandoval com uma voz dois tons mais baixos.

- Tá querendo sim, e nem vai pagar um jantarzinho antes? Não vai me chamar de meu amor? Não vai me levar pra passear no shopping antes não? Vai assim, na tora, diretão, Sandoval?

- Não, senhor – responde a voz agora quatro tons mais baixos.

- Então me explica que porra é esse perfil que você enviou pra mim. Eu tenho certeza que pedi uma coisa simples até mesmo para uma mente limitada como a sua. Levantar o perfil de uma família comum, um perfil que fosse totalmente similar à grande maioria dos perfis, uma droga de perfil que não se destacasse dos demais. E você me manda o perfil da porra duma velhinha que cuida sozinha do neto? Que porra de família comum é essa, Sandoval? Me diz, Sandoval! Anda!

- Err… bem, senhor diretor… se o senhor deixar eu posso explicar…

- O que você está esperando, lerdeza? EX-PLI-QUE-SE ou começo a procurar agora outro para colocar no teu lugar e te transfiro direto pro almoxarifado!

- Não, o almoxarifado não, por favor! – ouve-se um som de algo raspando para descer pela garganta – O senhor havia solicitado o levantamento de um perfil comum, que não chamasse a atenção do sistema.

- Sim. Pai, mãe, filho, filha e cachorro – responde o diretor enquanto brinca com a gravata vermelha.

- Então, acontece que hoje o perfil típico das famílias beneficiadas mudou. O que a alguns anos era padrão hoje é a exceção. Os perfis que não chamam a atenção do sistema são justamente aqueles que outrora eram considerados atípicos: somente mãe e filhos, ou avós e netos, ou casais do mesmo sexo, ou famílias de um único membro. Assim, enviei para o senhor o perfil de uma avó que cuida do neto, que hoje é o que mais aparece cadastrado no sistema.

- Peraí, você tá me dizendo então que o perfil de uma avó com o neto é o que menos chama a atenção no sistema?

- Sim, senhor.

- E que esse é o perfil que mais aparece cadastrado?

- Sim, senhor.

- Bom trabalho, Sandoval. Aliás, excelente ideia esta a que eu tive de te passar essa tarefa! Eu sou um verdadeiro gênio! Tenha certeza de que vou me lembrar de você na próxima promoção interna que tiver, pois esta promoção vai ser a minha, rárárá.

- Sim, senhor.

- Sandoval, só tem mais uma coisa…

- Pois não, senhor diretor.

- Esqueça totalmente esta consulta que fez para mim.

- Que consulta?

- Isto mesmo, garoto. Até mais.

- Até mais, senhor dir… Puxa, desligou…



****



- A próxima, por favor. Senhora? SENHORA? Venha aqui, por favor, me deixe ver qual é a sua senha… cento e setenta e um, é a sua vez, senhora, pode se sentar, por favor. Puxe aquela outra cadeira ali para o garoto. Isso. Agora, em que posso ajudá-la?

- O cartêro deu essa carta i meu mininu leu que era pra eu cumparecê aqui na agênça.

- Só um instante, deixa eu ver… mmmmm… comparecer… nhã nhã nhã… urgente… hummmm… cadastro… ah, sim, só um minuto que eu vou chamar o responsável para conversar com a senhora – a mulher levanta-se e desaparece por uma porta levando a carta junto.

- Vó, vó, ô vó – o menino puxa a manga da blusa de crochê da idosa.

- Qui fôi mininu, quéta um pouco, num vê que a vó tá ocupada? Taqui ó, a vó trouxe umas bolacha procê cumê. Pega, é daquelas di bichim que tu gosta…

- Senhora Maria das Graças? – pergunta um homem acompanhado da atendente.

- Sim, sinhô.

- Meu nome é Aroldo, da corregedoria interna. Nós chamamos a senhora aqui depois que o sistema detectou uma incongruência nos pagamentos do seu benefício.

- Num sei u que é isso não sinhô.

- É um erro, uma falha, algo incorreto que vem acontecendo na sua conta. Graças a um novo programa de monitoramento instalado esta semana, o sistema acusou que a senhora vem recebendo em sua conta há um ano e meio perto de um milhão de reais. A senhora sabia disso?

- Sei não sinhô. Um mião é muita coisa?

- É mais do que a maioria dos beneficiados recebe. Bem mais. Mas nós já pesquisamos os saques e descobrimos que a maior parte do dinheiro foi transferida para fora do país via internet. A senhora acessa a sua conta pela internet, dona Maria?

- Sei disso não sinhô. Eu té queria comprá um computadô pru mininu istudá, mais é mutcho caro.

- Infelizmente, o seu benefício terá de ser suspenso para investigação.

- Vó, vó, ô vó…

- Quétu, mininu – ralha a velha dando um beliscão no bracinho magrela – Pelamordedeus, moço, cumé qui nóis vamu fazê pra cumê, seu moço? – os olhos marejados fixam na atendente – Como vô comprá us meu remédiu? Ceis sabe quanto custa cuidá di mininu? Esse não é meu filho mas crio como si fosse. É meu neto, que a mãe largou comigo antes de sumir no mundo. Num tenho parente, num tenho fio, num tenho ómi pra ajudar, num tenho força pra trabaiá, num tenho mais nada além desse dinheirinho que cai todo mês na minha conta. É pouco, mas dá pra vivê. Mas sem ele o sinhô vai tá matando a gente.

- Aroldo, quem sabe se a gente não falasse com o superintendente sobre o caso da dona Maria – sugere esperançosa a atendente – vai que ele encontra uma outra solução para ela.

- Podemos tentar, Márcia, mas não sei vai ser possível. O caso dela é grave.

- Não custa tentar. Por favor, eu vou com você e ajudo a explicar pra ele.

- Senhora, por favor aguarde aqui enquanto subimos para falar com o superintendente. Não deve demorar. Vamos, Márcia – e ambos voltam a desaparecer pela mesma porta de antes.

- Vó, vó, ô vó…

- Qui foi mininu? Parece qui tem furmiga na bunda qui num fica quétu!

- Aquele ómi lá atrás, aquele lá narigudo, com o negóço vremei no pescoço, num é o que foi lá em casa?

- É ele sim mininu, agora fica quétu si ainda quizé ganhar aquela bicicretinha qui a vó prometeu. Enche a boca di bolacha e fica bunitinho, do jeito qui a vó gosta – e acaricia a cabeça do menino que obedece.



****



- O seu rosto não me é estranho.

- Já me disseram isso antes, eu devo ser um daqueles tipos supercomuns que existem poraí.

- Deve ser. Mas, continuando o nosso questionário, qual a sua pretensão salarial?

- Não estipulo um valor fixo, já trabalhei em cargos de chefia antes e sei que se houver alguma vaga em aberto a remuneração vai ser compatível.

- O senhor estaria disposto a aceitar um emprego de menor remuneração?

- Sim – responde constrangido, cabisbaixo encarando a gravata desbotada.

- Há vários casos de pessoas que conseguiram subir na carreira depois de alguns anos.

- Assim espero – e, segurando um suspiro, pergunta – quais são as vagas que você tem abertas?

- Deixe-me ver. Auxiliar administrativo. Auxiliar de produção. Gerente de almoxarifado. Me diga se alguma chamar a sua atenção. Gerente de transportes. Assessor de logística...

- Só um minuto… basta me dizer qual paga mais, por favor.

- Não quer que eu termine de ler as outras opções?

- Não precisa, é tudo igual – e solta o suspiro que antes estava preso.

- Acho que estou lembrando de onde eu lembro de você: é da televisão, não é? Você não esteve nos noticiários uns dois anos atrás? Era algum escândalo? Você já foi político?

- Não senhora. Deve ser alguém parecido comigo.

- Ok, bem, tenho vários da lista pagando dois salários-mínimos, mas sem benefícios nos primeiros seis meses. Depois deste período, ganha assistência odontológica.

- Ah, isso é muito importante para os sorrisos amarelos.

- Branqueamento? Não sei se o plano cobre isso, o senhor vai ter que se informar na empresa. E então, posso agendar a entrevista para a próxima terça às sete da manhã?

- Fazer o quê? Marque, por favor. E seja o que Deus quiser.

- É claro que existe uma outra possibilidade, se o senhor estiver interessado.

- Estou ouvindo.

- O senhor sabe que nós aqui do atendimento ganhamos muito pouco, não temos direito a horas-extras e o nosso ar condicionado quebrou há dois meses.

- Amham.

- Pois bem, o pessoal tá fazendo uma caixinha de donativos para consertar o ar. Se o senhor quiser contribuir, vo-lun-ta-ri-a-men-te, nesta ação entre amigos, eu poderia deixar o seu nome anotado aqui na nossa lista de amigos do setor, e se surgir alguma vaga especial, daquelas que a gente por aqui costuma chamar de oportunidade de ouro, nós ligamos para aqueles que lembrarmos primeiro.

- Ah, entendi. E a lista de amigos do setor é uma simples ajuda para a memória que vocês usam para lembrar de quais perfis se encaixam nas oportunidades de ouro.

- Isso mesmo, vejo que o senhor entendeu direitinho.

- Vou deixar vinte reais de contribuição.

- Deixe-me ver. Por vinte reais o senhor garante a posição de número dezenove na lista.

- E cinquenta?

- Bem, aí vai pro primeiro lugar.

- Antes que eu pague, você poderia me dizer quanto o segundo lugar deu?

- Lamento, senhor, mas isso é informação confidencial.

- Ok, foi só uma tentativa mesmo. Vou doar os cinquenta mesmo. Faz recibo?
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