A Arte de Não Ler

Lá em 2008 eu colaborava com o site OPS - O Pensador Selvagem com a coluna Palavras Mal Ditas, sobre literatura. Acontece que, por total falta de tempo minha, não consegui dar continuidade ao projeto. E parece que os administradores do OPS resolveram deletar os textos publicado por lá. Eu, que já dava como perdido todos os textos, tive uma surpresa ao me deparar com um deles vagando pela internet. Então, resolvi postá-lo aqui mesmo, já que era um texto até legalzinho.
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A Arte de Não Ler
Por Jefferson Maleski
15 de novembro de 2008

No artigo de estréia da coluna Palavras Mal Ditas, resolvi trazer algumas dicas para você não ler. Claro que este é um artigo importantíssimo em uma coluna sobre literatura! Quer saber porque? Então leia, reflita e não esqueça de comentar.

Nada melhor que estrear uma coluna de literatura falando sobre algo essencial a todo leitor: a necessidade de dominar a arte de não ler. É isso mesmo, você não entendeu errado não. Repito mais devagar e com ênfase o que eu disse: dominar-a-arte-de-NÃO-ler. Antes que você pense que eu enlouqueci de vez, explico, citando a passagem do escritor alemão Arthur Schopenhauer que inspirou este artigo. Ele disse ser “importante, em relação ao nosso hábito de leitura, a arte de não ler. [...] Para ler o que é bom uma condição é não ler o que é ruim, pois a vida é curta e o tempo e energia são limitados”[1]. Embora a expressão “a arte de não ler” seja mais usada atualmente na internet para justificar uma espécie de culto ao ócio anarquista, o que pretendo aqui é algo ligeiramente diferente: enumerar dicas para que o bom leitor descubra o que não deve ler. Tenha certeza de que, se você deseja ter uma vida repleta de boas leituras, obrigatoriamente terá de aprender a identificar quais são os livros que só irão te desviar da estrada de tijolos amarelos[2]. Vamos às dicas.

Livros bons são como vinhos

Concorde comigo: você já ouviu essa ladainha milhões de vezes: os clássicos da literatura são melhores que os livros contemporâneos. E o pior é que nós acreditamos cegamente que isso é verdade sem ao menos perguntar por quê! É, esqueceram de nos dizer quais são os argumentos que sustentam esta afirmação. Empiricamente. Se eles não existissem, a assertiva seria muito superficial. Mas não é. Então, vejamos quais são alguns dos principais motivos para se ler os clássicos.

Primeiro, os clássicos sobrevivem sobre esta terra há mais tempo que eu ou você, e provavelmente ainda estarão aqui depois que nós passarmos para outro plano astral. Essa longevidade não é mera coincidência, alguma coisa eles têm diferente dos outros livros que morreram pelo caminho, muitos, antes mesmo que os seus escritores. O teste básico para saber se o clássico é de boa safra é olhar a idade: se ele tiver 50 anos de publicação e ainda estiver sendo vendido e comentado e indicado, ele merece uma lida na contracapa ou na orelha. Se tiver mais de 100 e com as mesmas características mencionadas, você encontrará mais gente falando bem do que mal dele, e existirão resenhas e críticas aos montes mostrando os segredos da sua vida longa. Agora, se o livro tiver mais de 300 anos, aproveite: ele é uma máquina do tempo que veio diretamente do passado para a nossa época! E veio justamente para levar você na viagem de volta oferecendo, como bônus, a possibilidade de repetir a excursão quantas vezes quiser.

Segundo motivo, um bom livro pede um bom leitor. Pede não, exige. A situação agora se inverte. Ou você acha que um clássico vai deixar qualquer leitorzinho de meia-tigela colocar as mãos nele? Claro que não, clássico não é pra qualquer um não. Por isso, ele escolhe a dedo os poucos felizardos que irão deleitar-se em sua companhia. Os clássicos não se dão ao desfrute, como aqueles livros que vão com todo mundo, passam de mão em mão e não se respeitam, sendo logo esquecidos e abandonados, solitários, em um canto qualquer. Por isso, se você estiver lendo um clássico, é porque ele te escolheu – como leitor – em uma pessoateca (ou pessoaria, como preferir) repleta de outras boas opções.

Terceiro, os clássicos estão mais perto do paraíso. Os seus descendentes imperfeitos, as obras baseadas, as críticas, os ensaios, as intertextualidades, as adaptações, as novas versões são como fotocópias de fotocópias de fotocópias: por mais que tentem imitar, nunca chegarão aos pés do original. Muitas obras escritas atualmente são apenas clássicos reescritos disfarçadamente. As obras originais, mesmo as produzidas por pessoas simples, são mais instrutivas, divertidas e dignas que as escritas por eruditos cuja imaginação é uma gaiola de papagaios. Se os escritores atuais bebem nas fontes originais, os clássicos, elimine os intermediários!, faça igual a eles. Só assim você terá uma base sólida para analisar profundamente a originalidade do escritor contemporâneo.

Não seja uma das outras que vai com Maria

São publicados milhares de novos livros a cada ano. Se alguém pudesse ler todos, perceberia que noventa por cento não fariam diferença alguma à humanidade se não existissem. Eu minto: fariam uma diferença danada na preservação ambiental e nas mudanças climáticas do planeta se eles não existissem. Menos livros ruins seriam mais árvores respirando. Mas, você já se perguntou: por que há tantos livros ruins no mercado? É óbvio, porque os livros ruins são gananciosos, eles querem dinheiro, não admiração. São produtos enlatados produzidos em massa e que buscam as massas. É a tendência da nossa era consumista, e ocorre não só com os livros. Nós somos bombardeados todos os dias por propagandas feitas especialmente para pensar que precisamos do que, na verdade, não precisamos. Quando as editoras identificam um nicho de mercado que possa dar lucro, acontece o que expressou um escritor brasileiro[3] recentemente: multiplicam-se edições sobre “O livreiro de Cabul, O viado de Cabul, A puta de Cabul, O doido de Cabul, O baiano de Cabul”. Por isso, não leia o que está na moda só porque todo mundo lê. “A unanimidade é burra”, ensinou o professor Nelson Rodrigues. A moda passa. Nem todos valorizam como gastar o (pouco) tempo de suas vidas com qualidade. Tais pessoas lêem por status, lêem para que os outros as vejam lendo e não para si, para enriquecerem as suas vidas. “Quanto às obras ruins, nunca se lerá pouco quando se trata delas; quanto às boas, nunca elas serão lidas com freqüência excessiva”[1].

Lembre-se que poucos best-sellers do momento serão os clássicos de amanhã: “Pouco mais de uma dúzia de obras produzida no século, [são] obras que todavia permanecem [...] [e] o reconhecimento pela posteridade costuma ser pago com a perda de aplauso por parte dos contemporâneos, e vice-versa”[1].

Mais caro não é sinônimo de melhor

Esta dica é só para ressaltar o que já foi dito: o livro ruim quer dinheiro, o seu dinheiro, e, por isso, ele bate à sua porta vestido de terno e gravata quando, na verdade, é um assaltante. Não se iluda: até o lixo, quando embrulhado em papel de presente, é levado para dentro de casa. Hoje livros são lançados com festas e pôsteres e entrevistas, como se fossem celebridades recém descobertas. Pura propaganda. Os livros gastam mais dinheiro em marketing para compensar a falta de qualidade, como aquela velha história do conquistador barato que tem carrão para compensar a falta de outra coisa. Além do que, existem as pessoas que compram os livros do momento só para terem estantes encorpadas. Porém, nunca os lerão. Por isso, ambos se merecem, e esses livros estão realmente onde deveriam estar. Portanto, dê uma olhadela na sua estante, pois ela pode revelar aspectos da sua personalidade que você não percebe. É o diga-me o que lês que eu te direi quem és.

Precisa pintar um clima entre você e o livro (ou, Deixa o livro te levar, livro leva eu...)

Ler por obrigação é coisa de estudante ou de empregado, mas é algo que já está com os dias contados. Ninguém é obrigado a fazer nada a não ser em virtude de lei[4]. E não existe lei que te obrigue a ler. Se fosse assim, as cadeias estariam (mais) lotadas (mais) injustamente. Mas não. A leitura é igual ao sexo, se não estiver sendo bom para você, caia fora, parta pra outro(a) parceiro(a). Se você não gostou da cor da capa, do título, do sobrenome do autor, do amigo chato que jogou “aquilo” na sua mão, fuja!

Mas, talvez você seja o tipo de pessoa – embora eu duvide, porque leu meu texto até aqui – que prefira tomar uma cerveja com os amigos ou passear no parque com a namorada ou fazer qualquer coisa no mundo ao invés de perder tempo com um livro. E você está absolutamente certo! A vida é curta demais para fazer o que não se gosta. Se você não gosta de ler, não leia! Simples assim. Talvez amanhã você mude, ou talvez mude o livro que estará em suas mãos. Talvez os livros que você – nas profundezas de seu inconsciente, bem lá no fundo – anseia por ler, ainda não foram escritos. Talvez os livros que você lê hoje não sejam feitos de papel ou de palavras: a natureza é um livro aberto, as pessoas são livros abertos. Contudo, se optar seguir por este caminho, o meu conselho final é só um: memorize a frase a seguir e reflita nela, e use-a nos momentos de perigo, quando você estiver prestes a ler algo: “Quanto menos se lê, mais dano provoca o que se lê”[5]. É uma frase que poderá salvar o seu dia.

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REFERÊNCIAS
1. SCHOPENHAUER, Arthur. A arte de escrever. Porto Alegre: L&PM, 2007.
2. O Mágico de Oz, de Lyman Frank Baum.
3. Antonio Torres (1940-), citado no artigo “A fogueira, as Vaidades”,
de Adriana Lisboa. Suplemento Prosa & Verso. O Globo. Edição de 11/10/2008.
4. Artigo 5º, inciso II, da Constituição Federal de 1988.
5. Miguel Unamuno y Jugo (1864-1936).
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