And the Oscar goes to... (podre essa, seu sei, mas nunca tive a chance de falar isso em outras situações)

MINI PREFÁCIO DO CONTO: Eis o conto ganhador do Concurso de Contos Aumente um Ponto, promovido pelo blog Lendo.org, do qual participei como jurado. Pra quê ser assim, Rosalva? foi escrito por Dino Canteli. Confesso que descobri dentre os concorrentes alguns contos excelentes, mas também muita tranqueira. Espero que os bons contistas que não subiram no pódio continuem escrevendo, e os maus também, pois somente com a prática poderão melhorar. Quem estiver na dúvida em qual classificação se encaixa, me procure em particular que te falo.

Pra quê ser assim, Rosalva?
de Dino Canteli

Detesto essas liberdades que as visitas deliberam. Principalmente quando ouvem aquela malfadada expressão “sinta-se em casa” e a levam ao pé da letra. Vão nos quartos, mexem nas gavetas. Vão na cozinha, fuçam na geladeira. Reviram a estante e encontram o rascunho do meu futuro possível livro.

– Você está escrevendo um livro?
– Não, é meu balancete de despesas mensais. Dá aqui!
– Não é não, seu bobo… Esse seu balancete tem muitas letras pro meu gosto.
– Faço introduções longas.
– Mentiroso.
– Por favor, devolve.
– Por que todo cara de talento esconde as coisas que faz?
– Porque as pessoas tendem a fazer comparações. Sempre, aliás.
– Ai, pronto. Parece meu pai reclamando.
– Devolve, Rosalva. Ou então eu…

Rosalva é um nome que dá tesão até de pronunciar. A gente começa abrindo a boca pra fazer o “ro”, mexe todo o maxilar e a língua vai parar no céu da boca com o “zal”, e, por fim, os lábios se unem para cuspir a última sílaba, já mandando realmente tirar a roupa nesse “va”. Se isso não for erótico, ao menos serve de massagem facial. Rosalva! Se não fosse tão metida, eu e ela já teríamos, sei lá, fornicado.

– Se eu não devolver, você faz o quê?
– Faço um macarrão instantâneo enquanto isso.
– Você não sabe cozinhar outra coisa?
– Requento que é uma maravilha.

Não adianta discutir com mulher. É melhor deixá-la fazer o que quiser. O tédio e a mudança de opiniões no lado feminino vêm mais ligeiro. Passei a defender essa tese depois que meu casamento durou quatro meses.

E a Rosalva era assim: iria ler, se aborrecer e voltar a falar de qualquer outra coisa comigo. Ou então mudar de opinião e resolver fazer as temidas comparações que odeio, detesto, tenho pavor e derivados. Era tão fácil ela apenas dizer “vamo pro quarto”, “que calor”, “o que é esse auto-relevo na sua calça de veludo?”, “deixa eu segurar isso aí”, e crau.

– Você tem um estilo de alguém que conheço.
– Ihhhhh! Lá vem.
– Pera, deixa eu pensar… Ah, já sei: é o Luis Fernando Verissimo escrito.
– Já me disseram que eu era um Scliar, só que nos aspirantes.
– Hum… pensando melhor, Kafka! Você parece o Kafka!
– Concordo que já acordei estranho, mas o mais próximo disso foi uma ressaca.
– Humm… Um pouco de Guimarães Rosa nos personagens.
– Ele era um rural ortodoxo. Eu sou rural também, mas mais liberal.
– Putz, da linhagem do MST?
– MSG.
– Ãhn?
– Movimento dos sem gramática.

(…)

– Rá!
– Muito engraçadinho, macaco simão.
– Sei que não sou engraçado e não faço esforço nenhum para parecer.
– Você tem uma cabeça boa.
– Ah, é?
– Boa para dar um derrame.
– Obrigado, Edgard Allan Poe fêmea.
– Tá, peraí! Peraí. Falando sério. Deixa eu analisar melhor… Bem, com os tiros, as trepadas e as mortes, eu diria que o Rubem Fonseca está bem representado.
– Não é bem assim, me preocupo com os leitores mais sensíveis. Não quero ninguém deprimido.
– Lya Luft.
– Pára! Também não é isso. Tenho meus métodos narrativos pra chegar onde eu quero.
– Ah-rá! Aquele pessoal do O Segredo!

Aquela conversa estava tomando um rumo muito chato. Bem o que eu temia. Quando chega nesse ponto do abuso gratuito, eu costumo ser grosso e arremesso a primeira enciclopédia que encontro. Já falei, se ela fosse mais superficial e dissesse “quero que você examine uma coceirinha que tá me dando na virilha”, isso, assim e só, nossa relação seria muito mais harmônica.

Pra quê ser assim, Rosalva? Por que não é apenas uma dessas moças gostosas, de ancas largas, coxas grossas, seios fartos, lábios carnudos e vácuo no crânio? Ela é tudo isso, só que metida a intelectual. E tem hora que a gente não agüenta, mesmo.

– Vamos pra cama que eu te conto o meu “segredo”.

Passou-se vinte e poucos minutos de um rala-e-rola contagiante em que discurso nenhum tinha vez naquele espaço, a não ser alguns desabafos sem significações necessárias e de entendimento que é universal: AH, UH, OH, UH!

Extasiado e de cabeça vazia, virei pro lado.

– Vai, conta esse teu segredo.

“Que perseguição!”, pensei gritando. Só me relaciono com mulheres que lêem resumos de vestibulares e respondem a questionários da Capricho.

– Eu não tenho estilo nenhum!

Ah! Eu sabia: é o Millôr.

Fuck!
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