Como matar um bicho-papão - Parte II: O PAI

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Escuridão. Vazio. Silêncio.

Um cachorro late ao longe. Um carro passa na rua. O chão frio e duro. Chão?!? O despertar, a consciência, o abrir os olhos, os móveis assumindo as suas formas, a escuridão indo-se embora lentamente, tudo causa certa vertigem. Andréa demorou notar que estava deitada no chão da cozinha. Sentou-se no piso. O mundo ainda rodava um pouco e ela buscava equilíbrio. Começou a refazer mentalmente os seus passos desde onde se lembrava. Havia bebido o café, sentado à mesa, aberto o envelope, oh meu Deus, lido a carta. Percebeu que desmaiara ao ler aquela estranha carta. Um desespero súbito arrancara as rédeas da sua consciência e a subjugara.

A primeira frase que havia lido atropelou qualquer raciocínio lógico que ela tivesse formulado anteriormente. Oxalá nunca tivesse aberto aquele maldito envelope, é verdade que a idéia de jogá-lo fora lacrado lhe passara pela cabeça, mas a curiosidade feminina falou mais alto. É apenas uma carta, que mal pode fazer, justificava a si mesma. Andréa não tinha a idéia do efeito que as palavras possuem. Se as palavras são capazes de derrubar e manter impérios, imagine o que fariam na alma simples de uma mulher do interior. Foram as palavras que, neste momento, faziam-na arrepender-se de sua ousadia. Tentava recuperar-se do baque causado por aquele pedaço de papel, porém os seus olhos ardiam e a sua cabeça doía. Ao seu lado, também entregue ao chão, a carta semi-aberta mostrava o trecho que Andréa havia lido.

"Andréa, o seu pai foi assassinado."

Estas palavras simples mexeram com Andréa pelo mais evidente dos motivos: ela havia visto o pai naquele dia, cedo pela manhã. Como poderia uma carta enviada cinco anos atrás prever o assassinato de seu querido pai logo naquela manhã? Só poderia ser um engano, com certeza era um engano.

Seu paizinho Cairo não poderia estar morto. De forma alguma. Aquela sentença ou era um equívoco ou era uma mentira. Apesar disso, Andréa ficaria na dúvida até a hora do almoço, quando o seu pai retornaria da construção na qual trabalhava como pedreiro. E se ele não retornasse? Oh meu Deus! Cairo, apesar dos sinais da idade, ainda tinha vitalidade superior a de muitos jovens, comentava para as vizinhas. De modos rústicos, sempre fora forte, enérgico e explosivo, não somente no físico, mas também no temperamento. Signo de escorpião. Até mesmo os vícios – o cigarro de palha, o rabo de galo diário, o forró dos fins de semana – pareciam não afetar em nada a saúde de Cairo.

A rudeza do pai, na infância, transformara Andréa em uma menina tímida, carente, calada, quase imperceptível aos outros. Preterida em prol de seus dois irmãos mais velhos, aprendeu a contentar-se com as migalhas da atenção do pai. Sua mãe lhe ensinara um mantra particular: todo pai naturalmente gosta mais de filhos homens, contudo, obedeça a seu pai em tudo e talvez ele te ame. Por isso, superava sempre os seus irmãos, sendo a mais obediente, dedicada e solícita para agradar e, quem sabe, chamar para si os carinhos do pai.

Voltando de sua digressão, refletiu que ao invés de ficar ansiosa esperando a volta do pai, uma solução mais fácil seria continuar a leitura da carta. Talvez encontrasse algo nela que provasse o erro. Pegou a carta, levantou apoiando-se na cadeira e nesta sentou-se. Como em um ritual, abriu novamente a carta.

"Mas não estou falando do Cairo. Ele não é o seu pai, eu sou. E fui assassinado por ele."


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