O guardião

Noite fria. Silenciosa. Tranqüila. O guerreiro faz a sua ronda atento. Silencioso. Tranqüilo. Anda com passos tão inaudíveis quanto as batidas de seu coração. O guerreiro está consciente de seu dever. Sobre as muralhas da fortaleza, sabe que é o guardião daqueles que agora descansam. Do rei e do escravo, do homem e da mulher, da criança e do velho. Vidas dependem do seu bom trabalho. Sabe que a sua responsabilidade é grande e tem orgulho disso.

Um som abafado quebra o silêncio e a concentração. Com andar felino, aproxima-se de um pátio interior e vê invasores logo abaixo de si. São cinco e entram por uma portinhola. O guerreiro não pensa, age. Em um único salto, cai sobre os invasores, derrubando dois deles inconscientes. O homem mais próximo ataca rapidamente, e rapidamente cai sem vida aos pés do guerreiro. Outro ataca, outro tomba. O homem restante fica a uma distância segura, observando. Ambos estudam um ao outro. O guerreiro percebe pela vestimenta que os invasores são Kuravas, conhecidos e temidos por serem guerreiros ferozes e impiedosos.

O guerreiro ataca, mas o invasor esquiva-se e cai a certa distância. Porém, ao invés de continuar a luta, o invasor assovia e da portinhola saem outros quatro Kuravas. O guerreiro sorri. Os deuses o agraciaram com uma boa luta. E ele não decepcionará os deuses. Nem a si mesmo. Um a um, todos os invasores vão caindo, enquanto mais e mais saem da abertura. Ora são Kuravas mais velhos, porém mais experientes, ora são mais novos e impetuosos. A batalha é árdua. Algumas armas são conhecidas, outras adaptadas, outras o guerreiro nunca vira antes. Alguns atacam juntos ou em seqüência. Mas detalhes não lhe importam. Ele está ali para lutar e o fará com quaisquer um enquanto respirar.

A alvorada desponta, o cansaço do guerreiro só não é maior que a sua vontade. Ele luta agora ao redor de pilhas de corpos. Sua espada nunca bebera tanto sangue. Entrentanto, frente a um novo invasor, o guerreiro pára. Parece indeciso com o que vê. À sua frente uma espada aponta para ele, mas não é isso que o incomoda. À sua frente dois olhos cheios de ódio miram os seus, tampouco isso o afeta. O que o faz duvidar é o portador da espada e dos olhos: um menino. Praticamente da idade de seu filho. É o filho de outro alguém, que deveria estar neste momento em casa dormindo ao invés de numa batalha. O menino ataca e o guerreiro não reage. Pela primeira vez naquela noite, sente o aço inimigo traspassando-o, ao invés de o contrário. E o gosto de sangue na boca.

Os inimigos não insistem no ataque, pois a cidade, agora desperta, soa o alarme clamando por mais guardas. O menino foge pela portinhola e a sela por dentro. Os guardas encontram o guerreiro morto, apoiado em sua espada cravada ao chão, com uma expressão de serenidade, ao redor de dezenas de cadáveres inimigos. Muito bem, cumpriste sua missão, declara o chefe da guarda, reverenciando-o de frente. Todos os outros fazem o mesmo gesto.
Este conto é uma homenagem aos leitores do Bhagavad Gîtâ.
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