Ter + fazer = ser

Há dois verbos indissociáveis do ser humano: o ter e o fazer. Funcionam como as parcelas da equação onde a soma é o próprio ser. Mesmo aquele que não tem nada, ainda possui corpo, alma, vida, desejos, defeitos etc. Da mesma forma, até mesmo os que optam por um estado de total paralisia ainda continuam a fazer coisas simples (ou nem tão simples assim) como comer, beber, dormir, respirar, pensar etc. Se o ter e o fazer são capazes de se identificarem tão bem com o próprio ser a ponto de se confundirem como parte da personalidade, estes dois verbos quando executados conscientemente (e até inconscientemente, por que não?) revelam um pouco sobre aquele hóspede que habita o quarto escuro de nosso íntimo.

Mas como reagir diante de alguém que ataca algo que você tem ou que você fez? Esta ofensa deve ser levada para o lado pessoal? Melhor: seria uma ofensa pessoal? Analisando objetiva e friamente a questão, poderíamos argumentar que tudo o que possuímos ou fazemos reflete, mesmo que de modo parcial ou inconsciente, a nossa personalidade.

Se alguém compra um livro ou um DVD, por exemplo, está indiretamente revelando aos mais atentos um gosto ou uma opinião pessoal e até uma certa influência exercida sobre ele. Aquele objeto ou ato pode até demonstrar sutilmente uma fraqueza ou virtude.

Se a escolha for por um romance, além do óbvio que esta pessoa aprecia muito o romantismo, pode também indicar algo sobre quem a rodeia e o que (faz) falta em sua vida. Se alguém é desorganizado, seja no quarto, no guarda-roupas, seja no trabalho, na escrivaninha, está mostrando como é por dentro: uma pessoa fragmentada, com pensamentos, sentimentos ou objetivos conflitantes e sem prioridades definidas claramente.

Mas ser uma pessoa romântica ou desorganizada não a faz pior que as outras. Somente humanos tem a capacidade de serem românticos e desorganizados. E todos somos humanos. Tais características tornam a pessoa pior para aqueles que são diferentes dela. Mas não chegam a ser tão diferentes assim, pois todos temos graus de romantismo, desordem ou outro “defeito” ou “pecado” qualquer.

O homem exterioriza de forma natural o que tem em abundância por dentro. Faz isso por meio do ter e fazer. Quando o que temos ou fazemos é atacado por outra pessoa, na verdade ela está atacando algo que há em você e não nela. O diferente incomoda. Não que a pessoa esteja totalmente errada e você certa – é regra geral defendermos cegamente o que cremos antes que os argumentos contrários penetrem em nosso cérebro. Ou vice-versa, você também pode não estar totalmente certo e ela não totalmente errada. É apenas a boa e velha diferença de personalidades, que por incrível que pareça é algo bastante comum entre os seres humanos, graças a Deus.

Porém, quando há um posicionamento tão radical contra aquilo que você tem ou faz, a melhor solução é afastar-se. Isso para benefício mútuo. Para o seu benefício individual, acrescente ainda a reflexão sobre a situação: qual é o percentual em que está certo? E qual é o percentual em que o outro está?

Segundo Epíteto, preocupar-se com aquilo que está além da nossa capacidade de modificar, e aí incluem-se as vontades alheias, trará frustração. Deveríamos tentar mudar o que está dentro da nossa capacidade, o que está dentro de nós, e aqui inclui-se como encaramos as atitudes dos outros. Mesmo aquelas atitudes contra o que temos, o que fazemos, ou ainda, contra quem somos. Portanto, da próxima vez em que alguém atacar algo que você tem ou fez, pergunte-se: o que estou refletindo aos ao meu redor? Tenho de melhorar em algum aspecto negativo mais prejudicial a mim que aos outros? Consigo ver aquilo que está sendo atacado dentro de mim que é tão diferente do outro? Refletir sobre tais perguntas ajudará a resolver várias dessas situações tranquilamente.


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