Antígona, de Sófocles

Compre Antígona[ atualizado em 22/10/2008 ]

Antígona, tragédia escrita pelo dramaturgo grego Sófocles, mostra como duas opiniões opostas podem ser corretas dependendo do ângulo analisado. Esta obra é uma das seqüências de Édipo Rei e mostra o fim trágico dos descendentes amaldiçoados e incestuosos de Édipo e Jocasta.

Os dois filhos homens de Édipo, Etéocles e Polinice, morrem em batalha no mesmo dia. Um mata o outro. Um defendendo e outro atacando a cidade de Tebas, que passa a ser governada pelo cunhado de Édipo, Creonte. Creonte manda enterrar honrosamente Etéocles, e determina como a primeira lei de seu governo que Polinice não seja nem velado nem sepultado, por ser um traidor de sua terra natal, e quem descumprisse tal lei pagaria com a vida. Antígona, irmã dos falecidos, descumpre a lei e presta as honrarias fúnebres ao morto. Com este gesto é condenada à morte.

Creonte pode ser considerado por muitos como o tirano na história, mas ele fez o que qualquer governante em seu lugar faria. Ele homenageou o herói e puniu o traidor. Nada mais justo e legal aos olhos do Estado. E quando Antígona descumpriu a lei, mesmo que significasse punir sua sobrinha e futura nora, não poderia voltar atrás em sua palavra. Ele não poderia abrir uma exceção à lei somente porque esta atingiria a sua casa. A lei era superior ao rei.
"Se eu tolerar os desmandos da minha gente, perderei autoridade sobre os demais. [...] O insolente, o transgressor das leis, o que se opõe às autoridades não conte com meu aplauso. A que a cidade conferiu poder, a este importa obedecer, seja nas grandes questões seja nas justas... e até nas injustas. [...] Não há mal maior que a anarquia, ela devasta cidades, arrasa casas, aniquila a investida de forças aliadas" (pgs. 51-52).
A desobediência de Antígona era um ato contra o poder de Creonte, contra as leis do Estado, contra o próprio direito soberano. Creonte foi firme em defender a sua posição, assim como hoje os governantes são firmes (ao menos em tese) quando aplicam a lei aos transgressores (outra tese), pois a não punição levaria ao caos e anarquia.

Por outro lado, Antígona também tinha a sua razão. Como ela poderia obedecer a lei estatal e desobedecer a lei moral, religiosa, que mandava prestar homenagens fúnebres aos parentes mortos? A grande questão era: qual das duas leis era prioritária? Para ela, a lei de seus deuses, de sua moral e de sua religião. Mesmo que isto significasse a morte. Ela se defende perante Creonte:
"Nem eu supunha que tuas ordens tivessem o poder se superar as leis não-escritas, perenes, dos deuses, visto que és mortal. Pois elas não são de ontem nem de hoje, mas são sempre vivas, nem se sabe quando surgiram. Por isso, não pretendo, por temor às decisões de algum homem, expor-me à sentença divina" (pg. 36).
Esta passagem lembra as palavras de Jesus no evangelho de Marcos, capítulo 12, verso 17: "Pagai a César as coisas de César, mas a Deus as coisas de Deus". Quantos em toda história da humanidade não morreram por um ideal? Quantos hoje não morreriam como mártires por sua crença, por sua família ou por aquilo que faz parte de sua essência humana? Muitos o fariam, assim como Antígona.

Existe outra discussão sobre se os reais motivos tanto de Antígona quanto de Creonte não eram políticos. Estando os dois sucessores ao trono mortos (Etéocles e Polinice, irmãos de Antígona), o próximo herdeiro seria Creonte. Da linhagem dos Labdácidas (Laio e Édipo), sobraram somente Antígona e sua irmã, Ismene. Como Ismene cala-se a respeito do edito real, Antígona com a sua desobediência, silenciosamente incita o povo contra Creonte. Todos passam a admirar e concordar com a atitude dela em relação ao seu irmão. Começam a falar contra o governante. Creonte também pode ter tido a idéia de despoluir Tebas exterminando os descendentes incestuosos de Édipo, pois estes eram amaldiçoados. Caso o seu segundo filho, Hemon, se casasse com Antígona, a maldição continuaria em seus netos.

Como toda boa tragédia grega, no final muita gente morre. Mas o importante não é a contagem de corpos, antes, a discussão sobre grandes temas que envolvem moral, direito, política e filosofia. Esta discussão ainda faz parte do presente, onde vários pensadores e críticos tem analisado a obra de diferentes pontos-de-vista. Trata-se de uma leitura estimulante e obrigatória. A tradução direta do grego é de Donaldo Schüler. A seqüência para a leitura das obras que narram a saga edipana seria:

1º - Édipo Rei (escrito em 430 a.C.), de Sófocles;
2º - Édipo em Colono (401 a.C.), de Sófocles;
3º - Os Sete contra Tebas (467 a.C.), de Ésquilo;
4º - As Fenícias (411 a.C.), de Eurípedes;
5º - Antígona (442 a.C.), de Sófocles;

leitura em: Abril 2007
título: Antígona, de Sófocles
edição: 1ª, L&PM Editores (2006), Coleção L&PM Pocket nº 173, 97 pgs
preço: Compare no Buscapé
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