Vendedor de Beijos Usados, de Jefferson Luiz Maleski

A ressaca do século brincava de carrossel em meu cérebro quando acordei. Língua pregada no céu da boca, a boca seca, gosmenta e com um bafo cavernoso. E a minha cabeça, ai, como dói a minha cabeça! Se ao menos as paredes entrassem em acordo e decidissem cada uma estacionar em seus lugares, acho que me sentiria melhor. Procuro sentar na cama, me equilibrando pra não cair, respiro fundo e percebo que deitei e dormi de roupas. O fedor que exalo é de cigarro e vômito. Apesar da dor em tentar fazer funcionar uma máquina que fora usada e abusada na noite anterior, percebo que não consigo lembrar de imediato como cheguei em casa, guardei o carro, me deitei. Ai, a droga da minha cabeça. Como todo esforço traz uma recompensa, me esforço: levanto lentamente, me apoiando nos móveis, e vou até a cozinha beber um gole d’água. Mas a água não tem gosto. A língua não tem gosto. Dizem que beber nove copos de água depois de ingerir muito álcool evita ressaca. Ainda bem que não fiz isso, senão teria urinado nove copos d’água no colchão. Tento lembrar a placa da jamanta que passou por cima de mim pelo menos umas três vezes ontem, mas a primeira imagem que me vem à mente é a cara lerda do Michel.

O Michel é um cara legal, descolado, bem mais do que eu quando o assunto é trambiques, rolos, festas e, principalmente, garotas. Sempre que encontro ele na rua, tem algum negócio da China a oferecer: é um novo modelo de celular importado da Europa e que ainda não chegou ao Brasil, é o último par de ingressos para o showzaço que todos estão a fim de ir, mas já esgotado faz semanas. Como conheci o Michel? Se me recordo bem, ou foi em uma festa ou fomos apresentados por um conhecido. Ah sim, lembrei, foi um conhecido que nos apresentou, durante uma festa. Como o encontrava sempre nos mesmos lugares que eu freqüentava, passou a ser um companheiro de conversas, depois de baladas, barzinhos, shows e por fim de azarações. Ele sempre tinha os canais certos. Eu, o dinheiro.

- Cara, você precisa conhecer a Marcinha. Ela é uma deusa da beleza, e é amigona minha.

- Er, mas ela é solteira?

- Claro, né ô seu mané. Você acha que eu iria jogar na sua mão uma mina comprometida? Diz aí, posso ligar pra ela e marcar pra sair amanhã à noite?

- Si-sim, pode.

E assim começou o meu relacionamento com a Marcinha. Numa conversa informal na praça. Não que eu não fosse capaz de me arranjar sozinho, não me entenda mal, até que sou atraente apesar de não me achar bonito. Sei me virar razoavelmente bem em qualquer conversa, desde arte, viagens, culinária até um pouco de moda (embora nunca admitiria isso em público). Porém, tenho O defeito: sou extremamente tímido, principalmente com o sexo oposto. É a minha sina desde a 4ª série.

- Me beija logo, antes que a minha mãe volte.

- Aqui, assim?

- Agora!

E eu beijei, e a mãe dela voltou, e levei uns cascudos da mãe dela, que depois contou para a minha mãe, que me deu novos cascudos, que depois contou para o meu pai, que me deu mais uns cascudos por eu ter sido pego pela mãe da menina. E a safada da guria ainda espalhou para a escola toda que eu beijava mal. As minhas chances de beijar mais alguém naquele colégio: 0%. Até as feias me evitavam.

Mas o tempo passou e as coisas mudaram, apesar de que, as namoradas que tive serem quem chegavam em mim. E quem terminavam o namoro comigo. Valiam-se das desculpas mais esfarrapadas: ora eu era estranho ou esquisito, ora era bonzinho demais. Como se o cavalheirismo fosse encarado como sinal de menosprezo e submissão feminina. Outra desculpa recorrente era a que a garota dizia gostar de mim, mas como amigo. Não tem coisa pior para um homem ouvir. Enquanto você é o amigo, outro tá comendo ela, babaca.

Por isso resolvi me dedicar aos estudos, e meus pais me apoiaram nisso. Especialmente a minha mãe, que sonhava em me ver namorando a filha de uma de suas amigas da igreja. Eca, valha-me Deus. Preferi meter a cara nos livros, e o resultado é que saí bem na escola, na faculdade e nos negócios. Me formei programador de computadores. Desenvolvi sistemas para empresas de médio porte. Ganhei algum dinheiro. Hoje dou aulas na faculdade. Falar em sala de aula, no começo, foi um martírio. Mas como em Ciências da Computação o maior público é formado por caras como eu, acabei me acostumando.

- A Marcinha tem um filho pequeno, isso é problema pra você?

- Não, cara, nada contra.

- Conheço ela faz um tempão. Ela namorava um conhecido, que fez o filho nela e depois caiu na braquiária. Hoje ela só quer um homem que cuide dela. Aproveita, chance igual a essa não vai aparecer tão cedo. Ela é gente fina, gostosa e a machaiada vai cair matando. Só que você saiu na frente, falei de você e ela tá doida pra te conhecer.

- Sério?

- Claro, tá tudo marcado pra festa do Benito. Ela vai estar lá te esperando. Quero ver você babar no material que estou jogando na sua mão. Hoje você vai beijar na boca ou eu não me chamo Michel.


Ela estava lá, linda, maravilhosa, vitaminada, Marcinha, mas para mim? Era de se duvidar. Era muita esmola para um mendigo só. Tentei me lembrar de alguma boa ação que fizera para merecer tudo aquilo. A Marcinha tinha estatura mediana e corpo perfeito, e se destacava na pista de dança, balançando os longos cabelos loiros ao sabor da música, revelando as curvas acentuadas daquele mini-vestido preto. Tive de admitir que a gestação não deixara nenhuma marca visível no corpo dela.

- Oi loirão, esse é o Paulo, aquele amigo de quem falei.

- Muito prazer, Paulo, tudo bem?

- ...

- Qualé, Paulin, não vai cumprimentar a minha amiga?

- Hum-rum, desculpa, é... é que me engasguei...

(risos)

- Essa é a Marcinha, dá uma voltinha, loirão, deixa o meu amigo ver como você é gata.

A voltinha revelou que ela não usava um mini-vestido, mas uma blusa e uma mini-saia pretas, justíssimas, que pareciam fazer parte da anatomia da garota. Ao virar, senti o perfume intenso que ela exalava. E vi que ela não usava sutiã. Um homem sempre nota uma coisa dessas. Pelo menos em uma garota como aquela. O efeito da presença dela foi imediato em mim, e eu fiquei constrangido por não conseguir disfarçar direito. Não sem ir ao banheiro antes.

- Quer dançar, Paulinho?

- Eu? Nã-não, é que eu...

- Deixa de ser bobo, vem...

E o bobo foi. Imagine a cena: um cara tentando disfarçar a excitação enquanto a mulher mais sensual, provocante e cobiçada da festa descia e subia e se esfregava nele. Eu não sabia se estava no céu ou no inferno. Dançamos várias músicas. Ou melhor, ela dançou, eu fiz de conta que dancei. Mas foi boa a sensação de estar ao lado de alguém que todos os outros cobiçavam, se perguntando "o que ela viu nesse cara" ou “como faço para trancar ele no banheiro”. Até as outras mulheres me olhavam diferente. É a lei do mercado: se você tem, você atrai mais, se não tem, se fode sozinho.

- Amor, você quer que eu busque uma bebida pra você? - ela perguntou.

- Não precisa se preocupar com isso - respondi.

- É que vou buscar uma caipiuva pra mim, e posso trazer algo pra você.

- Tá bom, então traz um frozen. De morango.

Enquanto apreciava aquela vista maravilhosa se afastar de mim, notei que a palavra "amor" ecoava em meus ouvidos muito mais alta que as batidas do Dj. O Michel tinha desaparecido. Enquanto estava com a Marcinha, ele me pediu as chaves do carro para buscar umas amigas. Justificou-se que também queria beijar. Não seria somente eu o garanhão da noite.

- Oi, querido, aqui está o frozen. Eu tomei a liberdade de pedir uma porção de frango a passarinho para nós, custa só vinte reais, você se importa?

- Não, cl-claro que não.

E assim dançamos, bebemos e comemos. Michel chegou com quatro beldades de arrasar quarteirão, só não mais belas que a Marcinha. Enquanto as meninas atacavam o frango a passarinho e botavam o papo em dia – sim, elas eram amigas – Michel me chamou de lado.

- E aí, já beijou ela?

- Ainda não.

- Cara, você é lerdo demais. É só chegar junto, ela tá dando mole pra você.

- Sim, mas eu já tentei duas vezes e ela se fez de difícil.

- Cara, eu conheço a Marcinha, ela é assim mesmo, faz isso só pra te deixar com tesão. Eu te garanto, hoje você come ela. Você trouxe camisinha?

- Não.

- Então pega esta. Eu sempre carrego algumas. Sabe como é,ninguém sabe quando vai precisar.

Juro que a idéia de estar com a Marcinha, no sentido sexual, carnal e até canibal ainda não tinha me passado pela cabeça, pelo menos não pela cabeça de cima. E era verdade, ela estava dando o maior mole pra mim. Mas a cada investida minha, ela recusava educadamente. Isso estava me deixando maluco, em dois sentidos: primeiro, eu estava puto de raiva porque na festa todo mundo já estava beijando alguém, e segundo, porque eu tava explodindo de tesão. E a danada sabia provocar. Olhar insinuante, língua passeando suavemente pelos lábios, poses sensuais, uma conquistadora nata, uma predadora que hipnotiza e paralisa a vítima antes do bote. Mas consegui levá-la para uma área mais sossegada,após a piscina.

- Estou doido pra te beijar – desabafei, bem perto do ouvido dela.

- Eu também, mas não tenha pressa, é que antes eu preciso...

(toca o celular dela)

Droga, bem na hora H, quando havia tomado coragem, talvez incentivado pelo escuro, ou pelo perfume dela, ou até pelo excesso de frozens na cabeça. O tom da voz de Marcinha, em segundos, tinha passado de moderado a preocupante. Ela desligou apressada.

- Tenho de ir. É o meu filho, ele tá passando mal.

- Claro, vamos sim, fique calma.

- Posso te pedir um favor? Tenho de comprar o remédio dele e não trouxe dinheiro. Entrei na festa de graça porque conheço o Benito. Você me empresta duzentos reais? Prometo que eu te devolvo assim que chegarmos lá em casa.

- Puxa, claro que sim.

- Vamos avisar o Michel que estamos indo?

Não foi difícil achar o Michel, ele estava perto do portão de saída, mostrando o seu mais novo e moderno celular para uma das amigas. Expliquei a situação para ele, que não me deixou sair.

- Negativo, cara, você já bebeu demais. Nunca que iria deixar você dirigir. Amigo sóbrio é pra estas horas. E tem mais: quando eu fui buscar as meninas, passei por uma blitz aqui pertinho. Me passa as chaves que eu levo a Marcinha na farmácia e depois pra casa dela.

- E eu? E as tuas amigas?

- Vocês esperam a gente aqui, faz companhia pra elas até voltarmos, senão fica chato eu trazer elas aqui e deixá-las na mão, certo? Quebra o meu galho enquanto eu quebro o teu.

- Ok.

Michel e Marcinha saíram da festa tão rápidos quanto seria preciso para resolver uma emergência. Eu tentei fazer companhia para as amigas, mas quando conseguia localizar alguma delas, percebi que já tinham arrumado alguém para beijar. O Michel e a Marcinha demoraram uma eternidade. As meninas cansaram de esperar e foram embora uma a uma, arrumando carona com os seus ficantes. A festa foi esvaziando, enquanto eu bebia mais e mais frozens. Fui o último a sair, junto com o Dj. Sentei no meio-fio, esperando pelo meu carro, pelo meu amigo e pela minha garota. Por estar tonto demais, nem vi a hora que o Michel chegou, mas sei que eu já escutava alguns galos cantando mais longe.

- Desculpa aí, Paulin, mas você nem vai acreditar no que aconteceu! E não é que eu tive de levar o moleque da Marcinha pro Pronto-Socorro? O menino tava passando mal esquisito, quase morreu, teve convulsão e tudo. Pensei que hoje ele passava desta pra melhor. Mas agora tá tudo bem. Quem parece que tá mal agora é você, hein? Mas pode deixar que eu te levo pra casa e de lá pego um táxi.

Agora, pensando melhor – ainda com a cabeça doendo horrores, mas sem o efeito entorpecedor do álcool – tenho de concordar que eu realmente não estava em condições de dirigir. E foi o Michel quem me trouxe pra casa. Lembro até dele dizendo que a Marcinha pediu o meu telefone e que tinha gostado de mim. Mas agora é hora de eu me tratar, de melhorar de vez, e garanto que melhoro depois de beber meia dúzia de Engovs e Epoclers.

Caminho até a garagem, pois vou de carro até a farmácia. Ao abrir a porta, vejo um papelzinho azul caído no carpete. Pego ele e leio, mas demora alguns minutos até o meu raciocínio trazer à tona a frase “Hoje ela só quer um homem que cuide dela”. A notinha era o recibo de um motel, com a data de hoje. Essa parte, eu realmente não sei onde se encaixa na história que acabei de lembrar.


Mais um texto inspirado no Duelo de Escritores. Desta vez, o desafio era escrever algo com, no mínimo, 10.000 caracteres. Forcei um pouco a barra e escrevi o conto com EXATOS 10.000 caracteres (sem contar os espaços). Espero que tenham gostado.
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