A promessa


O ar noturno era de festa. A festa. Aquela mais aguardada dos últimos meses. O baile de debutantes anual da alta sociedade da cidade. Um evento que muitos desejavam ir, mas somente poucos escolhidos teriam o prazer. Vários carros, alguns próprios, outros alugados, entravam no estacionamento do clube, após passarem pela guarita em que os seguranças verificavam os convites. Do lado de fora do clube, via-se, após um declive acentuado de algumas centenas de metros, o hall de entrada decorado para receber princesas, pais, parentes e demais convivas. E era esta a visão que um jovem tinha enquanto argumentava com um dos seguranças.

- Por favor, moço, me deixa entrar. Eu já te falei, o meu convite foi roubado.

- Calma, rapaz, eu já chamei o chefe dos seguranças pelo walkie-talkie e ele já deve estar chegando aqui para resolver o seu problema.

O segurança até estava propenso a acreditar na história que o garoto lhe contou. Um rapaz mais velho da escola, seu adversário na disputa pelo coração de uma das debutantes da festa, ao saber que ele havia sido convidado o abordou com um grupo de rapazes e tomou-lhe o convite. O garoto parecia sincero na sua angústia. E estava vestido a rigor. Eram fortes indícios de que ele não era mais um dos penetras querendo entrar sem convite. Mas não cabia ao segurança julgar. Problemas assim eram com o chefe da segurança e com a organização do evento.

Após incontáveis minutos, o chefe da segurança aparece e conversa com o segurança distante alguns metros, apontando para o garoto de olhar desanimado. Deve ter feito um resumo rápido das explicações obtidas. O homem se aproxima do jovem com uma prancheta em mãos, e após pedir o seu nome verifica se este consta na lista.

- Qual é o nome da debutante que lhe convidou?

- Manuela. Manuela Bourbon Gonçalves.

- Bem, deixa eu te explicar uma coisa. Existem dois tipos de convites, os pessoais e os individuais. Os pessoais eu possuo o nome aqui e mesmo que alguém apareça sem o convite eu posso deixar entrar. Os individuais não, perdeu dançou. E me parece que o seu é individual, já que seu nome não consta aqui como convidados pessoais da senhorita Manuela.

- Mas tem como o senhor chamar ela até aqui? Ela poderia confirmar que me convidou.

- Você já tentou ligar no celular dela?

- Já, mas está desligado.

- Neste caso, me desculpe, mas não posso fazer nada por você. São ordens expressas da organização que ninguém entre sem convite.

O clube era um lugar afastado da cidade e de acesso difícil. Para chegar até ele, só de carro ou táxi. E naquela noite, em especial, costumava-se formar um pequeno congestionamento nas vias que davam acesso a entrada. E a tráfego estava caótico devido a um acidente na rodovia envolvendo um caminhão, que deixara o trânsito mais lento que o costumeiro. Enfim, era um trajeto de pelo menos uma hora até ali, embora não fosse distante.

O jovem lamentou ter demorado a chegar. Se tivesse vindo mais cedo, poderia ser visto pela Manuela quando esta entrasse no clube. Lamentou também ter dispensado a carona do pai antes de verificar se conseguiria entrar. Mas daí teria de explicar porque não tinha o convite e essa humilhação de admitir ser fraco para o seu próprio pai ele não iria passar. Nem que tivesse de passar a noite toda ali fora até o horário em que o pai lhe buscaria, fingindo ter se divertido quando o reencontrasse. Outra ideia lhe passou pela cabeça, a de entrar no clube sem convite. Mas teria de ser por um local menos visível aos seguranças. Resolveu dar uma volta para analisar as possibilidades. Os muros eram de pedra, com trepadeiras e musgos crescendo neles. Escalar não seria difícil, mas provavelmente teria algum segurança vigiando do lado de dentro. Ser pego pulando o muro anularia todas as chances de entrar no baile. Mesmo assim, era preciso tentar.

Ele precisava entrar. Precisava dançar ao menos uma música com Manuela. Era a dança que ela havia lhe prometido ao entregar o convite. Pelo que o rapaz sabia, só ele tinha sido convidado. Nem mesmo o outro, que lhe roubara o convite, tivera esse privilégio. Isto significava que ela o considerava especial para aquela noite especial. Por isso, se ele faltasse naquela noite especial para Manuela, poderia esquecer suas chances de algo com ela. E o pior, aquele cafajeste iria ficar no pé dela a noite toda, até conseguir algo.

Provavelmente já estava lá dentro, conversando com ela. Ou dançando. Ou beijando. Não, era demais pensar nisso. Ele precisava entrar, de qualquer jeito. A sua dança com Manuela não seria adiada.

Ladeou o muro até chegar a divisa com uma cerca, em um ponto afastado e escuro. O seu coração batia pela adrenalina. Manuela seria dele esta noite. Escalou a cerca, depois o muro e, após verificar que ninguém o observava, pulou para dentro. As batidas do seu coração só aceleraram mais quando alguém lhe deu algumas batidinhas no ombro. Havia pulado bem na frente de um dos seguranças, que do alto do muro não estava visível. Tentou argumentar, explicar a sua situação, mas nada. Chorava copiosamente. O brutamontes surdo e sem coração levou-o pelo colarinho até a entrada, avisando pelo comunicador que pegara seu primeiro espertinho da noite. Os olhares dos seguranças na portaria iluminada confirmavam a sua suspeita: ali ele não entraria mais, mesmo se arrumasse um novo convite.

Novamente em seu local de origem, com pensamentos de vergonha e raiva brigando em sua mente, não percebeu que havia alguém parado ao seu lado.

- Oi, você acabou sendo pego, não é?

Olhou para o lado e viu outro garoto, menor do que ele, usando uma jaqueta de couro e encostado em uma motocicleta. O rosto dele era estranhamente familiar. Poderia ser algum colega de escola? Poderia. Só não se lembrava de onde o conhecia.

- O seu problema foi que você nunca entrou nesse clube antes, então não o conhece por dentro. Por outro lado, eu sei como entrar e posso te ajudar. Quer dizer, isso se realmente for importante para você entrar.

- É a coisa mais importante da minha vida. Você faria isso por mim?

- É claro que tem um custo. Afinal, eu vim aqui essa noite só para poder lucrar algum.

- E o que você quer?

- Aquilo de mais valioso que você tenha contigo aí.

O jovem não havia trazido dinheiro. Tinha o relógio, o terno, o celular, os sapatos. Daria qualquer coisa para poder entrar. Dançar com Manuela valia isso. Enumerou tudo o que tinha para o baixinho que, após pensar um pouco, chegou a uma conclusão.

- Não, nada me interessa, mas você tem algo que eu sempre quis. A sua alma. Mas não precisa entregar agora, posso pegar ela na saída. Pode usá-la enquanto estiver dentro do baile.

- Como assim?

- Você quer ou não quer entrar? Daria ou não qualquer coisa para estar lá dentro agora? Eu não tenho tempo a perder, ou me dá o que eu quero ou chega de papo.

Um frio subiu pela coluna do rapaz. Mas a sua mente afastou aquela sensação ridícula. Aquele menino mais baixo não poderia estar falando sério. Ele queria apenas ver a sua reação diante daquele pedido inusitado. Resolveu aceitar, afinal não tinha nada a perder e, provavelmente, na saída ele lhe diria o que realmente queria. Aceitou e selou o acordo com um aperto de mão. A mão e o sorriso do garoto estavam gelados. Mas foi só apertá-la que ele levantou-se e pediu para segui-lo. Andaram na direção oposta a que o rapaz havia ido anteriormente. Após se afastarem suficientemente da entrada, o garoto entrou em um mato e começou a tirar alguns galhos jogados no chão. Embaixo deles havia um alçapão de madeira, que se abriu assim que ele o puxou. Viam-se os primeiros degraus de uma escada de pedras úmida e escura.

- Vamos entrar e assim que eu fechar o alçapão, eu acendo o meu isqueiro, para iluminar o caminho sem os guardas nos verem, ok?

A escada terminava em um longo corredor em declive. Na escuridão, parecia um corredor interminável. Andaram. Andaram. Andaram. Até que o som de música começou a ser ouvido. Era música de baile. Chegaram até uma porta de ferro, que estava apenas encostada. Saíram em um mezanino, ao lado das portas que conduzia para o salão de festas. Não havia seguranças à vista. O garoto disse que o esperaria ali.
O baile já havia começado. No palco, um cover tocava e dançava músicas do Elvis Presley. Haviam luzes e pessoas por todos os lados. Mas o rapaz procurava só por Manuela. Pareceu passar por alguns rostos conhecidos, mas não eram da escola. Apesar da festa, estavam todos com os semblantes sérios. Procurou pela garota em todos os cantos, mas só a viu depois de algum tempo, na porta dos toaletes. O seu coração brilhou ao vê-la tão bonita.

- Oi, Manu. Desculpe o atraso, depois te explico o trabalhão que deu para eu chegar até aqui. Mas, uau, você está linda!

- Ah, oi. Eu estou um pouco tonta. Acho que acabei de chegar também. Mas tenho de me limpar, alguém sujou o meu vestido.

Ao olhar para baixo, viu que o vestido dela estava manchado de sangue. Muito sangue. A princípio pensou que fosse algum detalhe original da roupa ou enfeite. Mas agora pegou-se preocupado com aquilo.

- O que aconteceu , Manu?

- Eu não me lembro. A última coisa que lembro foi de estar vindo para o baile com meus pais e um caminhão na rodovia quase nos jogar para fora da pista. Eu cheguei até a sentir as luzes do farol dele pertinho de nós. Acho que devo ter ficado em estado de choque, pois só lembro de já estar aqui.

O rapaz lembrou, em um flash, ter visto os bombeiros resgatando um carro que havia caído na ribanceira. Em um acidente envolvendo um caminhão. Havia um carro no meio do mato. Havia uma moça de vestido sendo socorrida. Ele não quis olhar muito porque havia sangue.

- Manu.

- O quê?

- Você prometeu uma dança comigo, lembra?

Texto desafio proposto no Duelo de Escritores de 11.01.2011, com o tema baile de debutantes e gênero fantasia.
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