Aventuras de Alice no País das Maravilhas

Se você usar um óculos com lentes azuis, verá todo o mundo azul. Se trocar por lentes vermelhas, acontecerá a mesma coisa, e assim por diante. Digo isso pois foi exatamente o que pensei após ler Aventuras de Alice no País das Maravilhas (Jorge Zahar Ed., 2009). A primeira leitura que fiz do clássico de Lewis Carroll em 2009 foi bastante confusa, como pode ser notada pela resenha que fiz na época. Agora acredito que muito desta confusão se deu por causa da edição traduzida pela Rosaura Enchemberg (L&PM Pocket, 1999) que li na primeira vez, que apesar de não ser tão antiga, atrapalhou a minha fluidez e entendimento da leitura. Maria Luiza Borges é quem assina a tradução da edição de bolso da Zahar, que venceu o Prêmio Jabuti como Melhor Tradução em 2009, e que comprei aproveitando uma superpromoção na internet. Percebi que foi um bom negócio. A edição, apesar de ser de bolso, tem capa dura e é graficamente perfeita. Inclui os desenhos originais de John Tenniel, ilustrador famoso que chegou até mesmo a influenciar Carroll solicitando a retirada de um capítulo do livro Alice através do Espelho. A Zahar fez bem em lançar duas versões do clássico: uma simples (a que li) com preço mais em conta, mas com acabamento de primeira, e uma comentada (que acredito ser a mais completa obra hoje sobre Alice no Brasil), com notas sobre os jogos de palavras e outros detalhes que demonstram a genialidade de Carroll ao criar Alice. Os jogos de palavras devem ser mais evidentes no inglês, mas a tradução conseguiu fazer um ótimo trabalho.

Mesmo na versão simplificada algumas características ficaram preservadas na edição, como palavras que constantemente rimam dentro dos parágrafos, dando a impressão de se ler uma poesia escrita em prosa. Leia o trecho abaixo em voz alta e vai perceber o que eu quero dizer.
“Por um trecho, a toca de coelho seguia na horizontal, como um túnel, depois se afundava de repente, tão de repente que Alice não teve um segundo para pensar em parar antes de se ver despencando num poço muito fundo.

Ou o poço era muito fundo, ou ela caía muito devagar, porque enquanto caía teve tempo de sobra para olhar à sua volta e imaginar o que iria acontecer em seguida”.
As letras das músicas, que são muitas no livro, estão facilmente assimiláveis. Aliás, grande parte do charme do livro está nas letras erradas das músicas que Alice canta. Dá pra entender que o escritor fez um livro para entreter e agradar uma menininha. Não consegue-se ler o livro imaginando que Carroll queria criticar algum aspecto na sociedade em que vivia. É um livro infantil, mostrando coisas que interessam crianças de um jeito inocente e deixando explícitas as dúvidas que a maioria delas tem. O livro cria um diálogo com as crianças. Cria um diálogo com a parte criança que ainda sobrevive dentro de nós, adultos. Não importa que a história não faça muito sentido lógico, racional, o que importa é que a infância é um País das Maravilhas que não se deve ser levado a sério demais, sob o risco de se perder grande parte da sua graça e magia. E é preciso usar os óculos certos para perceber isso.

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