O pior cego é o que não quer duvidar - Parte II

Mais parecia uma casa-fantasma. Não porque fosse amaldiçoada ou qualquer coisa do tipo, mas porque fazia-se naturalmente invisível para a maioria dos que transitavam a sua frente. A pintura velha, descascada – que lembrava ter sido, algum dia, parente distante de uma tonalidade mais vibrante – junto com as inúmeras manchas de infiltrações hidráulicas e os emaranhados de cabos e fios descascados e obsoletos, fariam qualquer ladrão de inteligência mediana riscá-la de seu itinerário de trabalho. Apesar de ser uma das da série de conjugados formados e reformados desde a década de 60, servia perfeitamente em sua função de casa: fornecer abrigo contra as intempéries e calor ou frescor, dependendo da ocasião. Mas também era um reflexo da personalidade de seu morador, mesmo que ele não se apercebesse disso. Contudo, naquele momento, somente uma peculiaridade sobre a moradora do número 34 da Travessa General Joaquim Inácio, Vila Esperança, era óbvia demais para não ser notada pelo homem parado a sua frente: aquela, definitivamente, era a casa de uma cega.

- Entre, seu João, e, por favor, não repare a bagunça – disse a moça.

Mas ele reparava. Não na bagunça e sim se alguém o tinha visto chegar até ali. Fora três ou quatro moleques jogando bola na calçada da esquina, não havia ninguém mais na rua àquela hora. Uma lâmpada queimada no poste em que cruzou com os meninos mostrara-se bastante oportuna para evitar futuras identificações. Ao fechar a porta enquanto Miriam pendurava a bolsa em um gancho na parede, não esqueceu de girar a chave com cuidado, duas vezes.

- Ali fica o sofá, me espere enquanto busco o kit de primeiros socorros.

- Tudo bem – respondeu o comportado visitante.

Mas não se sentou. Ao invés, fez uma rápida verificação na sala, viu que as cortinas pesadas ajudariam a abafar qualquer som alto. Além da sala, havia a cozinha e um banheiro naquele andar, bem como a escada para o andar de cima.

- Você mora sozinha, Míriam? – perguntou em uma altura de voz que pudesse ser ouvida da cozinha, mas cuidando para que não o fosse demasiado alta para despertar a curiosidade dos vizinhos.

- Não, eu moro com a minha avó. Mas ela não sai da cama desde o último derrame.

- Porque você diz “último”, foram mais de um?

- Quatro. Ela é velhinha, mas é bem durona.

- Realmente.

Não havia nada de valor a ser levado ali. Apenas uma televisão seminova – que soava como uma piada de mau gosto como mobiliário de uma cega e uma inválida - um sofá e uma cristaleira repleta de pratos, taças e contas a pagar. Apesar da sensação incômoda de que não deveria estar ali, abusando da bondade alheia, convenceu-se que no andar superior talvez tivesse mais sucesso. Foi quando viu Míriam voltando da cozinha com uma maleta branca encardida com a tão conhecida cruz rubra. Ela sentou-se ao seu lado, retirou gaze e uma bisnaga de pomada antiinflamatória. Enquanto fazia isso, João sentia o aroma que ela exalava. Estavam bastante próximos, e ela esquecera que uma alça da blusa havia caído, exibindo agora metade de seu seio. A excitação tomou conta de João e ele não resistiu mais, tirou rápido o canivete do bolso e pulou em cima de Míriam que, pega de surpresa, não esboçou qualquer reação.

- Fique caladinha – ele sussurou, olhando o seu reflexo nos óculos escuros da garota, uma mão em sua boca outra pressionando a lâmina em seu rosto – Nós vamos subir para o seu quarto, e você sequer pensar em gritar por ajuda, eu corto a sua garganta e depois a da sua avó. Entendido?

O rosto de pânico da moça, com lágrimas escorrendo sob os óculos, só conseguiu esboçar como resposta o aceno com a cabeça para cima e para baixo. Com brutalidade, ele a pôs em pé e, postando-se atrás dela, ainda mantendo uma das mãos em sua boca, com a outra ligou a televisão em um volume alto. Depois, pegou a gaze e conduziu a moça até a escada.

No primeiro andar, havia um pequeno corredor e duas portas. A da esquerda estava trancada, e João supôs que fosse o quarto da velha. Na outra porta, encontrou uma cama de casal, um guarda-roupa e uma penteadeira. Com a gaze, ele prendeu forte os braços de Míriam nas costas. Jogou-a na cama e arrancou-lhe as roupas, incontrolável. Só a deixou com os óculos. Como ela lhe pedia “por favor, não faça isso, por favor”, amordaçou-a com a sua camiseta. Eram muitos fatores para abafar os gritos e gemidos naquela cama, todos à favor de João fazer tudo o que quis, do jeito que quis e quantas vezes quis naquela noite com Míriam. João, que na verdade se chamava Sérgio, naquela noite sentiu-se Napoleão invadindo o país chamado Míriam. A sensação de poder subjugar outro ser humano da forma mais bestial possível funcionara como um poderoso afrodisíaco na libido daquele criminoso. Dizem que existe um instinto animal, tentador e extasiante que leva à destruição das coisas belas, inocentes e frágeis, que somente os vândalos e os anarquistas conseguem exprimir.

- Foi bom, não foi? – perguntou enquanto admirava o corpo nu e suado estendido ao seu lado – Percebi que você também gostou, não tente negar. Eu sei reconhecer estas coisas. Mas agora eu tenho de ir, por isso vou te soltar, mas lembre-se de que qualquer barulho e eu...

A ameaça nem seria necessária. Míriam parecia catatônica. João, ou Sérgio, desamarrou os seus braços e retirou a mordaça. Ainda nu, olhou a penteadeira e percebeu uma chave. Que maravilha, pensou, quem sabe encontro no outro quarto algo que possa levar. Olhou uma última vez para a cama com sua usuária imóvel - só duas lentes negras o encaravam - e caminhou até o outro quarto. A chave serviu perfeitamente e, ao abrir a porta, Sérgio se deparou com uma escada que descia em caracol. Estava escuro. Ao tatear na parede interna a procura do interruptor, ouviu um clique. Foi o último som que escutou, enquanto no bairro lâmpadas e televisores diminuíam de tensão elétrica por alguns segundos, parecendo que algo ali perto fritava.
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