O Príncipe Maldito VII

Leia também a Parte VI.
Todo pirata que se preza deve saber esconder um tesouro até de sua própria mãe. Isto porque a procedência das mães de piratas não é lá das melhores. Preferencialmente, o pirata deve escolher dois ou três homens leais o suficiente para descerem com ele em uma ilha deserta, ajudarem a cavar o buraco e a carregarem os baús. E depois do serviço feito, matar a todos, sem exceção. Esta é a orientação principal para uma carreira de sucesso, conforme ensina o famoso Guia do Pirata Moderno. Um pirata sem tesouro nunca será capitão, nem terá mulheres interesseiras o adulando pelas estalagens por onde passar, muito menos beberá rum oferecido de graça pelos colegas de profissão, igualmente interesseiros.

Mas os tempos mudaram. Ouro, jóias e pedras preciosas são coisas do passado, hoje só encontrados em caixas-forte de reis, rainhas e presidentes de países corruptos. Coloque um pirata lado a lado com um presidente e tenha certeza que alguém ficará sem o relógio de bolso. Detalhe: presidentes não usam relógio de bolso. Agora, os tesouros guardados pelos piratas à três chaves - porque sete é chave demais para um pirata se lembrar onde as escondeu - bem, os tesouros dos piratas hoje são as rotas dos ventos que cortam o Mar de Areia. Um pirata que sabe as direções, os atalhos, os horários e a força dos ventos conhece de perto a diferença em chegar num porto antes dos concorrentes ou ficar encalhado no meio do deserto, à espera da velha senhora de capa preta e foice na mão.

Barbarrala foi um dos primeiros piratas a mapear os ventos e a dar-lhes nomes. Foi ele quem nomeou os principais: Zé Firo, Boraembora, Alise-os, Uéolo, Ômi-nua-nu e outros menores. Muitos copiaram ou imitaram estes nomes mais tarde, no mundo todo, para chamar os ventinhos mixurucas que sopravam por aí, mas sempre plagiando as idéias de Barbarrala, o pirata original. Mas os ventos do Mar de Areia são diferentes. Eles são leais, assopram constantes na mesma direção e horário, fazendo com que homens de visão, que usavam uns aparelhos estranhos, feitos de areia, na frentes dos olhos para enxergar melhor, criassem portos e cidades nos lugares em que os ventos desembocavam. Contudo, nem todos os piratas conheciam os macetes de Barbarrala e não conseguiam chegar diretamente em todos os portos. Barbarrala não: ele conhecia atalhos no meio do caminho que o faziam acessar as quinze cidades portuárias existentes partindo-se de qualquer lugar.

Contudo, a memória de Barbarrala já não era mais a mesma, além do que, certa vez caiu enfermo no meio de uma travessia e se não fosse os seus homens o carregarem semi-desperto até o convés, ele e a tripulação teriam virado mais um montinho de areia no grande deserto. Depois deste evento quase fatídico, o capitão resolveu fazer um mapa, desenhando rota por rota e vento por vento detalhadamente para, assim, poder navegar tranquilo. Como o mapa jamais se alterava, o pirata passou a testar alternativas e foi completando-o até chegar o ponto de se gabar, quando bêbado e com duas ou três mulheres no colo, que era o único a ter catalogado todos os ventos do Mar de Areia. Durante muitos anos, o tesouro de Barbarrala foi o seu mapa do tesouro, e fez dele um homem rico e invejado. Bem, quer dizer, invejado sim, e ele seria um homem rico se não tivesse de pagar algumas dezenas de pensões alimentícias todos os meses.

O capitão pirata era o único que acessava o mapa, em sua cabine, estrategicamente escondido atrás de um quadro de mulher, e qualquer um que ousasse entrar lá era obrigado a andar na prancha em pleno deserto, caindo na areia e deixado à sua própria sorte. Entretanto, o descuido de Barbarrala foi desconfiar somente de humanos. Ele nunca imaginaria que um ser criado desde pequeno por ele, a quem considerava como um filho desde que era ovo, aquele a quem levava pendurado em seu ombro a todos os lugares, o trairia. Um papagaio traiçoeiro: Corruto III. Dizem as fofocas dos porões do navio que a ave aprendeu toda a maldade que sabia com o capitão, mas que, como o seu coração era bem menor que o do ser humano, não havia espaço para bombear sentimentos como compaixão ou misericórdia. Corruto III foi ardiloso. Esperou pelo momento certo, um descuido do pirata em deixá-lo a sós com o mapa e, depois de anos memorizando-o, picou-o em centenas de pedaços intraduzíveis. Fez isto justamente durante uma calmaria no meio do Mar de Areia, enquanto o navio Darius Drome chegara ao final do vento Uéolo. Aquele dia famoso vem sendo chamado desde então de a Revolta dos Apenados, se bem que somente um apenado entrara em motim. A partir daí, o resto é dedução óbvia: Corruto III repetiu alto a toda a tripulação as ameaças de morte que tanto ouvira o capitão fazer tantas vezes durante anos. Até a voz era a mesma do capitão Barbarrala! A ave deu um ultimato: ou eles o elegiam ao posto de novo capitão do navio, ou todos morreriam no meio do nada. Todos menos ele, que sairia voando e pegaria um dos ventos que sabia de cor o levariam com o mínimo esforço para a civilização. Os homens tremeram. Estavam diante do pior dos capitães piratas. Estavam diante de alguém que não hesitaria em abandonar o navio se não cumprissem as suas exigências. Assim, nem pensaram muito para se decidirem. Até porque pensar muito não é uma prática pirata. E até que pouca coisa mudaria já que o papagaio e o capitão eram malvados e ambos tinham a mesma voz, se bem o papagaio puxava um certo sotaque. Deste modo, Corruto III tornou-se o mais novo capitão pirata classe A (de Aplumado) e o capitão Barbarrala ficou relegado ao cargo de bichinho de estimação.

Era este capitão verde, temido por ter um coração desumano, que agora olhava para os prisioneiros em seu navio. A grande velocidade com que o navio se locomovia pelo deserto fazia o convés mais transitável, sem a quantidade normal de areia que insistia em achar legal entrar em todos os orifícios do corpo. Todos estavam amarrados em um mastro central, inclusive o gordo dorminhoco, que mesmo arrastado para o convés e envolto em grossas correntes de ferro, continuava dormindo abraçado a uma boneca de pano, como se nada anormal acontecesse. Os outros três observavam o papagaio andar lentamente com passinhos minúsculos ao redor deles, analisando-os friamente.

- Biltrrres! Como ousam invadirrr o meu navio?

Coube a Carpeaux ser o primeiro a tentar o papel de diplomata. Afinal, a diplomacia é a arte do dizer que não foi bem desse jeito, do deixa isso pra lá, do vamos tomar uma pra esquecer. Saiu-se com essa.

- Não sabíamos que você era o novo capitão, ó plumosidade dos piratas. Queríamos pregar uma peça em Barbarrala. Somos velhos conhecidos dele.

- É verrrdade, Barrrbarrrrrrala?

O pirata só fez que sim com a cabeça, mas continuou cabisbaixo em sua gaiola Pirate-Size.

- Então querrr dizerrr vocês não querrrem desafiarrr a minha autorrridade? Não estão tentando tomarrr o meu navio?

Os três responderam que não, BB e Carpeaux falando ao mesmo tempo e o druida mudo balançando a cabeça freneticamente para os lados.

- Mas como vocês não pagarrram passagem parrra subirrr a borrrdo, se não tiverrrem nada parrra me oferrrecerrr em trrroca vão terrr que sairrr do navio. O que vocês tem parrra me darrr?

Eles começaram a pensar em algo que pudesse ser interessante a um papagaio. Carpeaux, o covarde das horas impróprias, foi o primeiro a mencionar o objeto mágico descrito pelo druida, que pretendiam encontrar nas Terras Geélidas, e que tinha o poder de responder a qualquer pergunta formulada. O papagaio não se interessou, pois teria de confiar em libertá-los primeiro, para que depois cumprissem o trato. E de bobo o papagaio não tinha nada, a não ser o jeito de andar e falar. BB disse que poderia fazer um feitiço em que aparecesse uma quantidade enorme de sementes de girassol ou bolos de fubá ou qualquer outro tipo de especiaria que uma ave apreciasse, mas o papagaio fez que não ouviu. Lamentavelmente, as bruxas não possuem muitos poderes contra os piratas, amaldiçoados naturalmente por profissão. Feitiços, pragas e afins não pegam em quem não tem nada a perder, nem a temer. O impressionante era que, mesmo nessa hora crucial, o druida mudo permanecia calado.

- Pois bem, como estou benevolente hoje, dou quatrrro minutos parrra vocês parrrarem com estas baboseirrras e oferrrecerem algo que me interrresse. Senão, a cada minuto jogo um parrra forrra do navio.

Carpeaux e BB começaram a despejar ao mesmo tempo todas as palavras que apareciam em suas mentes, sem se importar se eram boas idéias. E o druida calado. Esta cena durou um minuto.

- Joguem o gorrrducho forrra!

- Nãããããão, grrritou BB, kam-ram, quer dizer, gritou BB, com os olhinhos cheios d'água, não tanto por compaixão ao companheiro de bando, mas por perceber que o papagaio malvado realmente falava sério.

Os três observaram uma dúzia de piratas arrastarem Gordulfo, com bastante esforço, até bombordo, onde ficava a prancha, e o jogarem para fora, do jeito que estava, amarrado com correntes, dormindo, abraçado a uma boneca de pano e com o dedão na boca. Com a velocidade em que navegavam, em poucos segundos estavam a quilômetros de onde ele caiu, e o rastro de nuvens de areia deixado pelo navio tornavam impossível ver alguma coisa. Muitos anos depois deste acontecimento, surgiriam lendas falando sobre um esqueleto gordo que aparecia no meio do deserto e laçava com correntes navios que passavam por ali e devorava tudo. Outras lendas contam que Gordulfo ainda está lá, hibernando até o dia em que sinta o cheiro de dragões azuis voando por perto, para caçá-los e fazer um bom guisado.

O papagaio voltou a atenção aos três prisioneiros restantes e recomeçou a contagem, agora do segundo minuto. Foi quando o druida fez um gesto pedindo uma tabuleta. Os seus companheiros gritaram e espernearam para que ele recebesse uma, seria a solução?, o druida parecia ser inteligente e um mero problema técnico no áudio não deveria resultar noutra morte. Trouxeram a tabuleta, uma pena com ponta (não era uma pena do capitão) e um tinteiro. O druida escreveu algo e mostrou a BB. Os dois olhinhos azuis dela arderam de esperança e coragem.

- Capitão, suspenda a contagem, sei exatamente o que podemos lhe oferecer.

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