O Anjo da Morte


Escola nova. Primeiro dia. Cochichos contam as aventuras das férias. O professor exibe um sorriso compatível com o bronzeado. Animado, explica a nova grade curricular.

O novato prestava atenção, quando ela apareceu. Então, perdeu-se naquela cena divinal. A moça, atrasada, pedira licença e entrara. Na sala e em sua mente, mas nesta nem precisava pedir. Ele esgotaria o rewind da memória infinitamente revendo o caminhar da Afrodite em câmera lenta até sentar-se ao seu lado. Fingiu olhar a caneta imóvel na mão suada, lutando para não desenhar coraçõezinhos. Sorrateiramente, olhou para a musa. Ela o observava. Foi uma flecha acertando o alvo, mas ele não se sentia no papel de flecha. Envergonhado, recebeu um sorriso educado, ordinário, antes dela desviar-se para o professor. Mas era tarde. Aquele sorriso era seu e seria sua prova definitiva da existência de Deus. Era para presenciar aquela maravilha que ele nascera.

Uma voz o acordou dos devaneios. Tem algum Marcolino Ferreira aqui? Sim, sou eu, respondeu o rosto enrubescido e candente observado por todos. Venha comigo, houve um erro, a sua turma não é esta, fulminou o Anjo da Morte, expulsando-o do Paraíso sem nem ao menos ter provado do fruto proibido.

Brincadeira com o texto original, reduzido-o para duzentas palavras.
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