Aeolus

A primeira coisa que senti foi o meu rosto ardendo sob o sol. Mas somente quando uma onda gelada atingiu o meu corpo é que abri os olhos assustada. Percebi que estava deitada em uma praia. Só quando tentei me levantar é que tomei consciência da tremenda dor em minha cabeça. Não tinha a mínima ideia de onde estava ou como fui parar ali. O meu corpo parecia todo quebrado e mesmo tonta enxerguei o corpo de um homem de bruços na areia. O seu paletó marrom estava encharcado. Me arrastei até ele. Por favor, esteja vivo. Consegui virar o homem e me espantei com o seu rosto estranhamente familiar. Mas minha cabeça doía e não consegui lembrar-me de onde o conhecia. Encostei o ouvido em seu rosto e não escutei respiração. Reuni todas as forças para tentar uma RCP. Assoprei duas vezes em sua boca. O seu tórax encheu-se de ar. Pressionei-o uma, duas, três, quatro, cinco, seis, merda, oito, nove, reage, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, vai, vinte, vai, vinte e dois, reage filho da puta, vinte e quatro, me ajuda Meu Deus, vinte e seis, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, pronto. Assoprar mais duas vezes. Desgraçado, volta. Voltei a pressionar o tórax uma vez… duas… três… até que ele vomitou. Virei o seu corpo de lado para sair toda a água salgada. Ele tossiu expelindo muito líquido durante alguns minutos.

“Quem é você, coisinha? Que lugar é este?”, me perguntou assim que recobrou as forças, olhando desconfiado.

“Me chamo Helena. Acordei um pouco antes de você e tinha esperança de que você se lembrasse de algo, já que a minha cabeça dói muito e não consigo pensar direito.”

“Eu estava em um cruzeiro rumo às ilhas gregas que ganhei como prêmio da empresa de seguros. A última coisa que lembro é estar bebendo uísque com uma loira no bar do navio. Por um momento, coisinha, pensei que você fazia parte dos meus delírios etílicos até perceber que na verdade vinha como bônus da ressaca”.

“Desculpe se te desapontei. Qual é o seu nome?”

“Ferris”.

“Ferris, tenho a impressão que já te vi em algum lugar. Já nos conhecemos?”

“Não, creio que não, eu me lembraria de uma coisinha como você. O que você faz?”

“Eu sou médica”.

“Muito bem, doutora”, respondeu colocando-se de pé e passou a olhar ao redor procurando algo, “É bastante razoável pensar que nós estávamos no mesmo navio e que naufragamos nesta ilha, certo?”.

Fiz que sim com a cabeça.

“Então”, ele continuou, “O nosso próximo passo é procurar por ajuda. A minha sugestão é continuarmos andando pela praia até encontrarmos algum pescador, equipe de resgate ou coisa parecida. Eu vou para a direita, você escolhe se quer ir para o outro lado ou me acompanhar”, e começou a andar sem se importar muito comigo.

A ideia não me parecia boa e o cara mais parecia um idiota, mas não queria ficar sozinha. Olhei para um morro próximo e parecia que alguém estava sacudindo os braços lá em cima. Mas o sol estava tão forte e logo em seguida olhei novamente e não vi mais nada. Resolvi seguir Ferris calada. Mas algo ali não estava certo. A minha cabeça doía um pouco menos, mesmo assim não me lembrava de ter estado em um navio. Na certa, eu estava sofrendo de alguma amnésia pós-traumática causada pelo naufrágio. O engraçado é que nunca imaginei que iria me autodiagnosticar com amnésia pós-traumática. Caminhamos pela praia ladeada pelo mar de um lado e mata fechada de outro por meia hora até encontrarmos pegadas deixadas na areia, que iam na mesma direção que nós. Ferris comentou animado que poderiam ser outros sobreviventes ou então nativos que nos ajudariam. Seguimos as pegadas até o ponto em que saíram da praia e entravam na mata. Neste ponto, paramos para descansar.

“Estou com sede”, reclamei sentando-me em um tronco junto com Ferris, “vamos ver se encontramos um rio senão é bem provável que eu desmaie devido à insolação”.

Neste instante, um tiro ressoou pela mata, fazendo com que vários pássaros passassem voando por nós. Ambos olhamos assustados, sem saber o que fazer. Ficamos alguns minutos ali, ponderando que rumo tomar. Foi quando Ferris falou, “Olha aqui, coisinha, nós não sabemos se as pegadas são de gente confiável. Este tiro que ouvimos significa que há gente armada na ilha. Pode ter sido um tiro de aviso, para que possamos localizar o socorro, mas também podem ser contrabandistas ou traficantes. Devemos tomar cuidado a partir de agora, certo coisinha?”.

Não resisti mais às provocações daquele cara. Eu estava cansada, com sede e com medo para aturar apelidos idiotas e respondi nervosa, “Por favor, pare de me chamar de coisinha, eu tenho nome, porra”.

Foi quando tive a nítida impressão de que alguém nos observava pela mata. Tive a certeza de ter ouvido o meu nome sussurrado. Levantei-me assustada e tentei avistar alguém, mas só vi algumas folhas balançando. Devia ter sido algum pequeno animal silvestre. Entramos na mata, havia uma trilha que facilitava a caminhada, mas parecia que alguém nos acompanhava. Ferris parecia compartilhar esta sensação comigo, pois toda hora parava para ouvir e ver algum ruído diferente. Caminhamos sob as penumbras das árvores e barulhos desconhecidos da mata por um bom tempo até encontrarmos uma clareira que nos deixou de queixos caídos.

“Que porra é essa?”, perguntei espantada.

“Parece ser uma construção antiga”, respondeu Ferris não menos espantado e apontou o dedo, “olhe lá, há um homem parado em frente aquele portal de pedras”.

Ambos corremos até o homem que estava de costas para nós, que estava parado frente a um grande portão em forma de arco que dava acesso a uma espécie de zigurate gigantesco, em estilo clássico antigo, mas coberto de cipós e trepadeiras.

“Ei, cara”, Ferris gritou ao se aproximar do homem, na verdade um rapaz de calças jeans e uma jaqueta cinza, “quem é você?”.

O jovem pareceu não ouvir Ferris. Continuou estático olhando para uma inscrição no topo do portal. Rodeamos o homem e paramos à sua frente. Ele não percebeu a gente. Somente quando Ferris pôs as mãos em seus ombros e o chacoalhou é que ele viu que estávamos ali. Com os olhos revelando um medo que somente ele parecia sentir, olhou para mim, ergueu o braço e apontou para o portal.

“Aeolus”, foi o que disse, mostrando caracteres que pareciam grego para mim, e depois desmaiou.

Ele estava em estado de choque. Ainda bem que havia um pequeno riacho de águas refrescantes contornando o zigurate. Carregamos o jovem até lá e enquanto eu verificava se a água era potável, Ferris jogou um pouco no rosto do rapaz. A água era boa, e saciamos nossa sede ao mesmo tempo em que o homem recuperou a consciência. Ferris foi logo o interrogando, “Você é algum retardado mental ou andou fumando erva estragada?”.

“Vocês não vão acreditar. Afinal, eu não estou acreditando até agora. Podem me chamar de Dex. Este é o meu nickname. Sou desenvolvedor de jogos de simulação da realidade. E acho que estamos presos dentro de um jogo que criei”.

“O quê?!? Era só o que me faltava… eu perdido em uma ilha deserta e ao invés de ajuda acho um maluco!”, vociferou Ferris.

“Calma, Ferris, vamos ouvir o garoto”, sugeri, embora eu mesma não discordasse muito.

“Vocês viram aquelas inscrições no portal? Sabem o que elas significam? Fui eu quem as colocou ali. Lá está escrito, em grego, Aeolus ou Éolo, o nome do deus grego dos ventos. Ele era o pai de Sísifo, condenado pelos deuses a rolar uma pedra montanha acima por toda a eternidade por descumprir ordens divinas. Mas você já sabia disso, não é?”, e olhou para mim.

Ferris olhou para mim e rodou o dedo indicador ao lado da cabeça. O rapaz pareceu não gostar da insinuação e me perguntou, “Eu falei com você agora a pouco, Helena, não é?”. Isso foi o suficiente para que Ferris parasse de suspeitar da sanidade do rapaz e começasse a suspeitar da minha honestidade, “O que isto significa, coisinha? Como este cara sabe o seu nome?”.

“Não faço a mínima ideia”, respondi surpresa e acuada.

“Você me perguntou como fazemos para sair da ilha e eu te disse que a única solução era…”.

O som de um tiro de rifle ecoou pelos paredões da construção antiga e instintivamente olhei de onde viera. Uma figura armada e encapuzada apareceu no zigurate dois níveis acima de nós e com outro tiro acertou o peito de Dex. Não deu nem tempo de lamentar a sua morte, pois os tiros continuavam zunindo em nossa direção. Vi Ferris correr para o zigurate e encostar-se na parede, ficando fora da mira do atirador. Com o susto, eu tinha me afastado da construção, ficando totalmente exposta ao perigo. Vi o atirado se aproximando e, quando um tiro passou zunindo perto do meu ouvido esquerdo, corri para a mata, para salvar a minha vida, sem olhar para trás. A mata fechada seria uma proteção visual contra os disparos à distância. Mas eu havia me separado de Ferris. Porém, o que mais eu poderia fazer? Eu tinha correr até a praia ou encontrar um lugar para me esconder. Atrás de mim, os tiros continuavam cada vez mais longe.

Correr no meio do mato traz várias consequências desagradáveis. Você pode se perder ou se machucar pisando onde não deve ou encontrando algum animal feroz. O resultado para mim foi prender o pé em algo escondido e cair de cara no chão. Xinguei todas as mães do mundo. Olhei e era uma corda esticada rente ao chão. Mas não era uma armadilha, senão eu já estaria presa. Fiquei surpresa ao seguir a corda e me deparar com uma porta de metal camuflada sob os arbustos. Estava fixada na terra com símbolos militares e supus ser um abrigo antiaéreo da época da guerra. Resolvi me esconder ali. Se ela tivesse uma trava por dentro eu estaria segura. Mas a porra da porta não tinha. Ela dava para um corredor escuro e entrei deixando com que a luz do dia atrás de mim servisse como guia quando eu fosse sair. Quando estava chegando ao final do corredor, tateando mas com os olhos já se acostumando à escuridão, notei duas portas duplas. Nem tempo de escolher, pois um barulho atrás de mim revelou um vulto negro parado na entrada. Eu o via, mas ele não por causa da escuridão. Lentamente, forcei uma das portas, que rangeu e o vulto avançou em minha direção. Entrei depressa e fechei a porta, me encostando contra ela. Tateei no escuro e encontrei um interruptor. Não sei se foi por causa de baterias ou um gerador ou sorte, mas o fato é que as luzes se acenderam. Era uma sala repleta de armas. Havia fuzis, rifles, pistolas, facas, granadas, roupas militares, botas etc. Com sinais de ter sido usada recentemente. Calcei a porta com uma cadeira e resolvi me armar. Se alguém queria me matar, mas eu não iria desistir tão fácil. Tirei as minhas roupas e vesti um dos uniformes. Peguei armas e munição. Foi quando ouvi bateram na porta. Depois ouvi tiros. Meu coração disparou quando vi uma escada em espiral no canto da sala. Em dois pulos já estava subindo por ela por metros que na escuridão pareciam intermináveis. Acabei saindo em uma escotilha, que se abriu facilmente.

Agora estava em uma situação privilegiada, pois havia saído em uma espécie de penhasco, com uma boa visão geográfica da ilha. Talvez conseguisse avistar o caminho para a praia. Ainda estava nestes pensamentos quando fui atingida por algo duro nas costas e caí, derrubando as armas que pegara. Virei-me e vi o atirador parado apontando a arma para mim. Ele estava uniformizado igual a mim, mas com o uniforme coberto de sangue. E usava uma meia de seda no rosto. Com um reflexo que não sei de onde surgiu, chutei o cano do rifle que voou para longe dele. Ele arrancou a faca da cintura e pulou feroz sobre mim. Consegui desviar da faca e rolamos pelo chão, trocando socos e pontapés. Foi uma luta desigual, eu nunca antes havia brigado em toda a minha vida, e aquele soldado parecia treinado para matar. Mas o instinto de sobrevivência falou mais alto, eu não queria morrer ali, daquela forma idiota. Rolamos para a beirada do penhasco. Uma queda dali seria fatal. E eu até poderia morrer, mas eu levaria o desgraçado comigo. Em um descuido, aceitei um soco em seu nariz e consegui deixá-lo zonzo o suficiente para, com uma das mãos, cravar a própria faca em sua barriga. O estranho se levantou cambaleante e olhou incrédulo para a faca.

“Sua desgraçada, você deveria morrer”, sussurrou. Era uma voz de mulher.

Foi quando, sem pensar duas vezes, o ataquei e empurrei no abismo e ele, ou ela, seja quem for, caiu de costas. Aproximei-me da beirada e olhei para baixo e só vi o corpo flutuando nas ondas que rebentavam contra a encosta. Passado o susto, resolvi voltar para a praia, quem sabe Ferris estivesse por lá. Ainda em cima do morro, andei algumas dezenas de metros quando avistei a praia. Havia duas pessoas andando e chacoalhei os braços de alegria. Ferris havia encontrado ajuda! Corri até lá para encontrá-lo. Me orientava pelo rumo que havia traçado em cima do morro. Mas tive de parar quando escutei um gemido. Engatilhei o rifle e aproximei-me com cautela. Ao rodear uma árvore, encontrei Ferris caído. Ele havia levado um tiro na barriga e estava todo cortado. Todo ensanguentado, parecia inerte. Mas, quando me viu se aproximar dele, pegou um pedaço de pau e me ameaçou, mesmo ainda no chão.

“Filha da puta, voltou para terminar o serviço, coisinha?”

“Ferris, sou eu, Helena.”

“Sei, da última vez que confiei nestas palavras acabei assim. Se bem que agora não tenho mais forças, consegui com muito custo me arrastar até aqui. Vou morrer em breve. Vamos, desgraçada, termine o serviço que começou…”, e levantando-se de supetão me atacou com fúria.

Tive de atirar nele. Ele estava louco. O tiro ressoou pela mata, fazendo pássaros e macacos fugirem. Não sei o que há nesta ilha que faz com que as pessoas fiquem loucas. Quero sair daqui o quanto antes. Quando já me aproximava da praia escutei vozes e me escondi. Se fossem mais loucos, eu não iria facilitar. Aproximei-me com cuidado e me enfiei atrás de uma moita, mas meus olhos não acreditaram no que eu estava vendo. Ali, bem na minha frente, sentados descansando em um tronco, estavam Ferris e eu! Ouvi ela dizer “Por favor, pare de me chamar de coisinha, eu tenho nome, porra” e sem querer deixei escapar um “Helena”. Ela se calou e olhou na minha direção. Tive de me abaixar para não ser vista. Eu sabia para onde eles iriam e resolvi me antecipar pela trilha. Me afastei sem fazer barulho e quando já estava a uma boa distância, voltei a correr. Ao chegar a clareira do zigurate, vi Dex parado em frente ao portal. Aproximei-me dele, sacudindo-o com força.

“Dex, sou eu, Helena. Você tem que me explicar o que está acontecendo. Vi você morrer na minha frente. E agora você está aqui, vivo novamente. E acabo de ver eu mesma. Eu só posso estar ficando louca”.

Ele me olhou dentro dos olhos e disse, “Eu criei este jogo, Helena, mas ainda não o finalizei. Esta é a ilha de Éolo, o deus dos ventos. Foi ele quem forneceu os ventos que levaram Ulisses de volta para casa, e porque Ulisses o desobedeceu, retornou ao início de sua viagem, tendo de recomeçar de novo. E Éolo foi o pai de Sísifo, outro condenado a repetir a mesma tarefa eternamente, nunca ficando completa. Portanto, você só vai sair do jogo quebrando o loop dele. E isso é possível somente eliminando todos os outros jogadores na ilha, inclusive os clones, forçando o jogo a terminar antes do final”.

Foi quando entendi a porra toda. Eu tinha pouco tempo antes de Ferris e eu aparecermos na clareira. Corri para a escada do zigurate, deixando o abobado do Dex olhando para o portal. Me escondi atrás de uma parede, esperando o momento oportuno. Procurei no bolso por munição para o rifle e encontrei uma meia preta de seda. Com a faca, fiz dois buracos para os olhos e fiquei esperando. Se tudo o que eu precisava era foder três desgraçados para sair dessa maldita ilha, eu faria isso, com certeza.

Tema-desafio "ILHA DESERTA" do Duelo de Escritores de 01.07.2010.
Postar um comentário