Olho por olho

AVISO: estou testando uma mudança de estilo e tema, e o miniconto abaixo foi elaborado propositalmente para provocar repulsa. Se você não gosta de ler coisas assim, não prossiga. Se acredita que já viu um pouco de tudo e quer se aventurar a ler, peço somente que depois deixe o seu comentário se eu consegui atingir, mesmo que um pouco, o objetivo. Este texto foi inspirado nesta imagem.
Não sinto dor, exceto quando tento pensar. É como se acordasse agora, sentindo que perdi algo. Não estou na minha cama. Não estou na minha casa. E parece que também não estou no meu corpo. Percebo-me imóvel, no chão frio, em meio à montanhas de lixo. Tento mexer a minha mão. Devo ter mexido, mas não a senti. Está morta. Eu também devo estar, porque não ouço, não sinto, não vejo muito bem, pois a claridade me cega. Mas há um movimento, uma sensação que percorre o meu corpo, lentamente, de baixo para cima. São pequenos pulsos compassados que provocam arrepios. Só quando o rabo toca meu nariz percebo que não sou eu e sim um camundongo explorando o mundo sobre mim. Ele para e cheira o meu rosto. Sinto seus longos bigodes roçando a minha pele e o seu nariz úmido e gelado me traz uma percepção de que, afinal, não estou morto. Ele começa a lamber algo em meu rosto. Não. Ele começa a comer o que antes era o meu olho direito. Sinto um líquido quente escorrendo e me encharcando a medida que os seus dentes e unhas afiados me possibilitam ouvir o crunch-crunch em meus ossos. Mas não sinto dor. E percebo calmamente que não tenho mais olho quando ele – o gordo – ao tentar entrar mais fundo, entala na cavidade óssea ocular vazia. As suas unhas afiadas derrapam sob a minha face soltando tirinhas de pele e filetes de sangue. Instintivamente, minha mão pega pelo meio e o puxa para fora. Ele guincha, arranha, morde, xinga, babando restos do líquido gelatinoso que antes me possibilitava enxergar, e cospe sangue em mim. Eu sorrio. Percebo que o meu outro olho está bom enquanto vejo umas terminações nervosas que também deveriam ser minhas sendo sugadas entre patinhas e dentes. Então, ele para e lambe os bigodes e me encara com aqueles olhos negros, como que sabendo quem venceria ao final. Mas ele e eu não contávamos que o meu corpo se levantaria. O mundo gira ao redor de mim mas não caio. Uso um paletó, e coloco o camundongo no bolso, ainda o segurando com a mão. Olho para a outra mão e vejo apenas a manga do paletó. Isso que dá ter um olho só: consegue-se ver apenas uma mão. As pernas cambaleiam sem rumo sem que eu mande. Estão mais vivas que eu. Seguem até uma estrutura retorcida de ferro e pedras que parece uma lembrança, só que mais feia. Um vento sulfuroso quase me derruba, quase fecha o meu olho só. Tiro a mão do bolso para proteger-me e o rato foge. Covarde. Passo a mão pelo rosto e não sinto a pele, só ardor. Mas é o rosto ou a mão que está sem pele? É quando vejo o menino, nu, coberto de fuligem, chorando, a poucos metros. É para lá que as pernas me levam. Ele tem o rosto coberto de sangue e algo escorre pelo seu nariz. Ele lambe os bigodes e me encara com seus olhos negros. Mas desta vez, o camundongo dentro de mim é mais rápido, e quando percebo já sinto o estourar do seu olho direito sob os meus dentes.
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