As Diabólicas, de Boileau-Narcejac

“Duas mulheres. Um homem. Uma combinação que pode ser fatal.”

Os livros escritos em dupla resultam geralmente em algo, no mínimo, interessante de se analisar. Eu mesmo não me imagino escrevendo algo em parceria com outro escritor. Não que a idéia seja ruim, mas por ser necessário abrir mão de um pouco da sua individualidade e de se fazer concessões, nem sempre fáceis, ao parceiro de escrita. Talvez o escritor precise estar em um nível de evolução bastante avançado nos quesitos abnegação e humildade. Porque o escritor é um ser egoísta por natureza. O que escreve é a essência do seu ser, o “gêmeo desconhecido”, o filhinho querido e mimado, a plantinha nascida depois de meses de trabalho árduo na lavoura mental. O resultado final pode ser a cara cuspida e escarrada do escritor ou um pequeno Frankenstein, ou ambos, mas é seu e lhe trará orgulho ou vergonha não só pelo resto da sua existência, mas além dela. E assim, existem escritores em que a escrita em conjunto traz uma sinergia benéfica.
"Pierre Boileau e Thomas Narcejac se encontraram pela primeira vez no ano de 1948. Desse encontro nasceria uma das parcerias literárias mais propícias de que se tem notícia. Juntos iriam publicar dezenas de policiais de suspense, muitos deles adaptados para o cinema. Em 1957, por exemplo, Alfred Hitchcock utilizou o enredo de D’entre les morts para realizar Um corpo que cai, com James Stewart e Kim Novak. Apesar da extrema afinidade literária, Boileau e Narcejc sempre levaram vidas muito diversas. Narcejac viveu durante muitos anos como professor na cidade de Nantes, antes de se transferir para Nice. Boileau sempre morou em Paris e sua experiência profissional foi das mais variadas, incluindo uma passagem como porteiro de boate. Encontrando-se apenas ocasionalmente, os autores criaram e escreveram seus livros trocando idéias e capítulos por correspondência." (orelha do livro)
A história de As Diabólicas traz um golpe financeiro que envolve um triângulo amoroso: Ravinel e sua amante Lucienne planejam e executam o assassinato da esposa de Ravinel, Mireille, simulando um acidente ou suicídio, para receberem o seguro e fugirem juntos. Só que, após o assassinato, o corpo de Mireille desaparece e surgem vários indícios de que ela está viva: cartas enviadas por ela como se tudo estivesse normal, parentes de Mireille dizendo que a viram normalmente após o ocorrido, a descoberta da estranha história sobre uma doença rara de infância de Mireille, tudo cria um clima ao mesmo tempo misterioso e sobrenatural. Mesmo o título meio que “entregando” o final, e quem já assistiu a versão cinematográfica de 1996, vale a pena ler o livro francês pela tensão evidente a cada página. A maestria com que os escritores conseguem manter a dúvida no ar faz com que As Diabólicas seja um clássico do gênero suspense policial.

O livro foi adaptado para o cinema como o film noir francês Les Diaboliques (1955), ganhador dos prêmios Louis Delluc (1954), NYFCC (1955) e Edgar (1956) e é um dos 13 filmes de terror indicados pela Entertainment Weekly. Segundo o blog Pé em Quadro, a atriz que faz o papel de Christina Delassalle, a esposa injustiçada da trama, é a brasileira Vera Amado Clouzot, esposa do diretor do filme e filha do diplomata Gilberto Amado. Antes do filme tornar-se um cult teve o roteiro disputado por Alfred Hitchcock e H. G. Clouzot, sendo que o último só conseguiu adquirir os direitos de filmagem horas antes do primeiro. Quando souberam do ocorrido, Boileau e Narcejac escreveram uma outra história exclusiva para Hitchcock, D'entre les morts, que virou a obra-prima do suspense Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958). Recentemente, o filme clássico de 1955 ganhou a refilmagem Diabolique (1996) com atuações de Sharon Stone, Isabelle Adjani e Kathy Bates. Mesmos assim, conforme a maioria dos críticos, o original continua sendo insuperável, e é o que atesta o IMDB: enquanto a pontuação do original é de 8.3/10, a da refilmagem aparece com míseros 5.0/10).

Outra coisa que me chamou a atenção foram as vilãs. Não sei é uma tara literária exclusivamente minha, mas o fato é que sou louco por mulheres inteligentes, malvadas e sedutoras, seja em livros ou filmes. Simplesmente é o meu sonho de consumo cair na mão de uma destas. Eu até trocaria de lugar com o Ravinel/Delassalle, sem remorso nem receio. Mas apesar das francesas malvadinhas me atiçarem deixando o seu perfume no ar, a musa-vilã do ano já foi eleita: a Gretchen Morgan da série americana Prison Break. Não tem como não amar/odiar ela intensamente.

A adaptação do filme traz uma história diferente da do livro, mas não menos interessante. Nas telas, desde o início já se sabe do plano em que Nicole, a amante, e Christina, a esposa, juntam-se para assassinar Delassalle, o marido-amante violento e diretor do internato para garotos onde moram. Após afogá-lo na banheira, elas jogam o corpo na piscina do internato para ser encontrado na próxima limpeza a ser feita pelo zelador. Seria o crime perfeito, se o corpo não desaparece! O suspense e a tensão aumentam gradativamente, com pistas do crime reaparecendo e sendo deixadas não se sabe por quem – talvez por um chantagista que viu os planos das “diabólicas” ou pela alma penada do falecido – em lugares incriminadores. No final, a trama dá uma reviravolta onde vítimas tornam-se cúmplices e cúmplices, vítimas. Enfim, são duas histórias boas, mas diferentes: um filme bom baseado em um livro bom. Pena que o livro seja encontrado só usado e o filme original em pouquíssimas locadoras.

Veja o trailer da refilmagem Diabolique (em inglês):


Excelente
leitura: Agosto de 2008
obra: As Diabólicas (Les diaboliques: celle qui n'était plus), de Boileau-Narcejac
tradução: Pedro Cavalcanti
edição: 1ª, Coleção Amarela - Editora Globo (1987), 168 pgs
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