Fado

Esta é a continuação do conto Vingança ou justiça? publicado no blog Fênix Apoplética.
Este tal Destino é um grande gozador. Promete mundos e fundos aos ingênuos quando na verdade está cedendo corda ao enforcado para, quando menos se espera, retesar o laço e bradar “quem pensas que és” e “não te deixei ir tão longe”. Da mesma forma, pode o Destino brincar – e você, leitor, o perceberá na irônica história que contarei agora – sim, pode o Destino brincar simulando despejar bênçãos quando faz exatamente o oposto.

Na penumbra do quarto um homem fitava aquela que dormia em sua cama. Ela havia sido trazida inconsciente para ser socorrida. O lume da pequena vela sobre o criado-mudo a revelava uma pintura angelical. Olhos nipônicos. Cabelos negros. Lábios chamejantes. Nunca a vira antes, tão bela, tão desprotegida, tão sensual. Mas ele sabia quem tinha em mãos. Uma mulher trazida pelo Diabo.

O médico diagnosticara amnésia temporária, provavelmente definitiva. Contudo, apesar de não o recordar, Laia tinha uma história naquela casa. Todos os empregados sabiam o que ocorrera entre ela e o patrão no passado. Um pensamento engenhoso brilhou no azul profundo dos olhos daquele homem – o que nem todos conseguem discernir, olhando para trás, é o exato momento em que suas vidas saem dos trilhos, mas aviso de antemão que foi aqui que nosso personagem meteu os pés pelas mãos –, um pensamento que erigiu um sorriso malicioso. Sabia que a idéia era perigosa, mas precisava arriscar. Agiu com rapidez. Ordenou aos serviçais que atuassem perfeitamente em seus novos papéis a partir daquele momento, sob pena de severos castigos.

Hector recriou o passado de Laia. Restituiu-lhe amigos. Imaginários. Momentos. Intimidades. Pensamentos. Desejos. Sentimentos. Imaginários. Deu-lhe um novo nome, o dele. Contou inúmeras mentiras, mais por medo de confessar a única verdade que gritava amordaçada em seu peito. Ela ouvia, perguntava, ruminava e por fim aceitava sem demonstrar resignação, revolta ou alegria. Aquele teatro fez crescer dentro de Hector uma felicidade genuína. Entretanto, a felicidade o cegava e ele não notou a sombra de apatia que crescia em Laia. Pudera, ele era pura paixão. Ela, torpor.

Cabe aqui fazer uma interrupção em nossa história para breves considerações sobre o amor. O leitor há de perdoar-me não só porque a mesma é pertinente ao causo quanto à realidade humana. Pobres e débeis são as vítimas do cupido. Depois de transpassadas com a seta deste desarmam as defesas para com as atiradas pelos seres amados. Morrem por amar. Morrem pelo amado. E a pior das ilusões: morrem felizes. O Destino, aquele velho traquinas, não se faz de bobo e costuma usar o amor como cabresto para controlá-los em suas estripulias. Às vezes, faz amar a quem não se deve e odiar aos que só deram amor. Já disseram que demonstrar amor demais gera o efeito inverso. Por isso os bons maridos são os mais traídos. Os cães dóceis os que mais apanham. Os heróis os que morrem cedo.

Laia, tão apaixonada e humilhada antes, agora respeitada e enaltecida, passou a desprezar Hector. Ele, porém, a amava incontrolavelmente. Quanto mais escondia o seu segredo de Laia mais o coração ardia. Depois de uma longa viagem, resolveu revelar-se para a amada. Daria o maior presente que poderia naquela data especial.

- Feliz aniversário, Laia! Minha adorável esposa. Saúde...

Brindou. Bebeu. Aquele momento pareceu congelar no tempo. Ele nunca saberia o que aconteceu primeiro: se foi a garganta contraindo-se e o coração parando que o fizeram olhar para a cristaleira em que residia o pequeno frasco desde a chegada de Laia ou se foi perceber a ausência do frasco no móvel que lhe revelou os sintomas do envenenamento. Veloz, a sua vida passou em flashes. Assistiu cenas do passado. Visualizou as que desejava acontecer – e que até certo ponto existiram, em sua cabeça –, mas que jamais ocorreriam, pois em segundos cairia morto.

Viu, por exemplo, o seu desespero ao imaginar Laia recordando o passado. Retomando a vingança interrompida. Sim, ele sabia desde o início. Quando achou o frasco nas vestes da moça. Quando o médico revelou ser um veneno poderosíssimo. Quando os empregados o alertaram para o rancor – legítimo e adormecido – que existia no íntimo dela. Todavia, ele preferiu crer na felicidade duradoura – trazida sabe-se lá por Deus, Diabo ou Destino – e pôr à prova a sua amada mantendo visível o pequeno frasco negro. Desejava avidamente que nunca desaparecesse, já que indicaria o fim da amnésia e do amor de Laia.

Viu também quando trocara de lugar com o seu irmão gêmeo, Hector. A fazenda ia mal, pois a tísica de Hector não o deixava trabalhar. Fernando viera da Europa para assumir os negócios da família enquanto Hector fazia o caminho inverso em busca de tratamento. Armaram o blefe em segredo para evitar as especulações dos credores.

Viu quantas vezes viajou a duas cidades de distância para corresponder-se com o irmão. Não queria que Laia se lembrasse dele nem que ele soubesse dela. Mas teria de tomar coragem e contar o seu segredo, pois a última carta do irmão o anunciava curado e regressando de viagem na semana seguinte.

Viu o quanto lutara para recuperar a fazenda da esposa. Foi um esforço árduo que resultava em chegar tarde e cansado. Muitas vezes nem amor conseguia fazer direito. Contudo, em sua derradeira e longa viagem conseguira comprar as terras de volta. Estava extasiado. Era o presente ideal de aniversário de casamento restituir à autêntica dona o seu quinhão na mesma hora em que revelasse sua identidade. E em troca só pediria que lhe chamasse pelo seu verdadeiro nome, Fernando.

Por fim, reviu a cena em que vira Laia pela primeira vez e se apaixonara. Na noite do acidente, ela sendo carregada inconsciente até o quarto. Descobrira no mesmo dia que a mulher da sua vida poderia ser a da sua morte. Mas não é que o pobre diabo acreditava mesmo no Destino? O mundo apagou-se por completo deixando no vácuo o eco de seu último pensamento, o mesmo que o fizera sorrir maliciosamente meses atrás enquanto admirava Laia dormindo. “Eu daria a minha vida para ter esta mulher”.
Continua em Vingança ou justiça? Parte II publicado no blog Fênix Apoplética.
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