Entre Marcel Proust e Titanic

Potentes cordas vocais fazem tremer as poltronas das quais eles não se levantam. Coca-Cola, cartão de crédito, bandas de rock, festas, boates. Está delineado o mundo obtuso dos futuros donos do poder. Para eles, os políticos são serpentes traiçoeiras; os pais, fungos que empolaram sua liberdade, suas ações.

Isso não quer dizer, de maneira alguma, que os adolescentes de hoje não tenham motivo para repudiar o coronelismo político que subsiste há 500 anos ou para repelir a tradicional rebeldia que nasceu talvez 15 anos após o Big Bang. Isso tudo evidencia, na verdade, uma postura diante do País.

Somos (e eu, a partir de agora, por solidariedade e cumplicidade, incluo-me no paredão da artilharia) uma geração acomodada, pouco consciente, desconfiada e ingênua. somos, enfim, tomados ora pela alienação, ora por uma indignação passiva, uma permissividade quase incompreensível que nos leva a dizer sem fazer. Somos alienados quando assistimos, boquiabertos e atônitos, a uma globalização que não compreendemos. A indignação passiva aparece por sua vez, quando, conscientes de que a corrupção existe, criticamo-na mas abstemo-nos do voto.

Somos, ainda, extremamente suscetíveis à tentativa de manipulação e de controle ideológico que nos privam de decisões livres e autênticas e nos impõe um véu translúcido, transparente a conveniências, oposto à realidade. Quando cacofonias cinematográficas nos dizem que cabem aos americanos (do norte) salvar o mundo, aceitamos com subserviência e nem mesmo nos damos conta disso.

Trata-se, de fato, - e eis então a deficiência estrutural - de uma geração sem acesso a uma educação de qualidade e que não cultiva hábitos de leitura: como ser consciente quando não se lê jornal? Como prezar a cidadania quando não se tem consciência do que é Brasil, sua História, seu povo? Como saber votar? Parece mesmo impossível, considerando-se a atual situação da juventude.

A mudança, por fim, depende mais de nós mesmos que do governo. É necessário educação de qualidade e um espírito ativo em face dos problemas brasileiros. Temos que deixar de ser a geração que diz que Marcel Proust é um parente de um piloto de F-1, que acha Titanic um obra-prima e Picasso, um boçal. Temos, enfim, que adquirir o senso do que somos enquanto parte da humanidade.

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Essa redação foi estudada na última aula do meu curso de extensão de Língua Portuguesa. Apesar de anônima, diz-se que foi escrita em um vestibular por um jovem de 18 anos, em que o tema era Brasil 500 anos. Meu professor, que é revisor de bancas de vestibulares, considera esse texto o exemplo perfeito de como redigir, inclusive salientando a diferença provocativa do título em relação ao tema.
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