Dá-nos o amor nosso de cada dia

A memória, às vezes, escolhe trilhas estranhas para fazer as suas caminhadas. Só ela é capaz de esquecer coisas propositalmente para mais tarde nos maravilhar com a redescoberta de algo que já sabíamos. Foi o que aconteceu comigo dias atrás, enquanto eu me divertia em uma faxina periódica para diminuir a papelada acumulada em casa. Encontrei em uma gaveta a pasta de estudos do primeiro período – que mais tarde viria a ser o único – do curso de jornalismo da PUC em Goiânia, cursado em uma época em que não sabia exatamente o que queria da vida. Ainda hoje não arrisco dizer se sei. Relendo xeroxes, testes e provas, encontrei o trabalho final da disciplina Teoria da Comunicação I começando a exalar o aroma típico de pergaminho. Havia me esquecido completamente, apesar de ter me decepcionado bastante com ele. Aproveitando a proximidade do Dia dos Namorados o professor solicitara que os alunos entrevistassem alguém sobre o amor. A tarefa era simples, mas o entrevistador deveria passar um tempo junto ao entrevistado para tirar as próprias conclusões sobre a veracidade do discurso. Lembro que alguns colegas logo de cara já mencionaram os avós, outros, com mais acessibilidade social, citaram nomes de personalidades ilustres como o prefeito ou o governador. No quesito originalidade eu estava na zona de rebaixamento da terceira divisão. A minha família morava longe. Eu não conhecia ninguém relevante. Nem namorada eu tinha para usar como cobaia. Eu precisava de uma boa ideia urgente.

Resolvi andar para espairecer. Não sei quais mecanismos ligam o caminhar à produção de ideias. Talvez algum hormônio produzido pelo esforço físico telefone para os neurônios. Ou talvez seja só porque esqueçamos momentaneamente o problema, acendendo a luz e deixando a janela mental aberta para atrair as novas ideias. As avenidas planejadas, amplas e arborizadas do centro de Goiânia são o lugar ideal para se encontrar tipos e situações inusitadas. Não chegam perto de uma Quinta Avenida no quesito gente exótica, mas vez por outra apresentam figurinhas bem raras. E foi com uma destas que me deparei.

Antes das denúncias de extermínio pipocarem pela mídia, era normal encontrar mendigos nas ruas de Goiânia como parte integrante da paisagem citadina, um cartão postal nada desejável aos comerciantes locais e aos políticos da capital. Um maltrapilho encontrava-se sentado próximo à esquina segurando um cartaz em papelão escrito “uma esmola por um amor de deus”. Neste ponto preciso admitir que a minha compulsão em defesa da língua portuguesa já foi bem mais ferrenha no passado. Cheguei a abandonar possíveis relacionamentos com garotas a quem carinhosamente classifiquei como Meninas Concerteza. Pois é, a má escrita me broxa deveras. Contudo, a construção gramatical simplória na placa do mendigo me trouxe empatia por ele. Até pensei que um “ismola” se encaixaria melhor ali. Sorri com a sensação pecaminosa de burlar as sagradas regras gramaticas para indicar pobreza não só material mas também intelectual e isso ser utilizado como propaganda. Plenamente justificável.

Retirei dez reais da carteira e me aproximei. Assim que depositei a nota na tapoer suja ele me dirigiu o grande par de óculos negros encaixados tão perfeitamente no meio de uma profusão de cabelos e barba compridos que pareciam ter nascido com ele. Senti um arrepio percorrer pelo corpo, parecia que ele olhava além de mim, sensação que aumentou quando ouvi a voz grave agradecendo e pedindo a minha mão. Era uma voz melodiosa, porém firme, daquelas que esperamos ouvir bradar no momento de nossa morte ou suspeitamos tê-la ouvido quando nascemos. Estendi automaticamente a mão e senti um pequeno choque – similar ao que acontece vez por outra no carro ou no chuveiro – quando ele a usou para levantar-se. Por um momento pensei estar alucinando sob a impiedosa baixa umidade da região Centro-Oeste. A estatura do homem me pareceu enorme, colossal e, mesmo eu sendo mais alto, senti-me minúsculo, insignificante, fugaz. Aquele cara sim sabia o que era ter presença natural.

- Eu sei quem você é e o que precisa.

Puxei a mão. Com certeza EU não o conhecia. Mas assim que ele falou pensei que talvez ELE me conhecesse de outras vezes que eu tivesse passado por ali. Porém, descartei logo a hipótese, pois a capital tem mais de um milhão de habitantes e a Avenida Independência não costuma ser minha rota habitual. Contudo, ao observar melhor as roupas gastas mas limpas do mendigo uma lâmpada brilhou na minha cabeça.

- O senhor é cigano?

- Não, meu amigo, não faço parte dos roma. Apesar de vir de uma tradição tão antiga quanto.

Lembro-me de ter ficado surpreso com a inesperada erudição do mendigo e fazer uma anotação mental para procurar o significado da palavra desconhecida posteriormente. Curiosidade despertada, resolvi continuar a conversa.

- Então não entendi o que o senhor quis dizer com me conhecer e saber o que preciso.

- Eu posso explicar, meu jovem, se além do dinheiro também tiver um pouco de tempo para este pobre miserável.

- Fique à vontade, respondi, interessado pela figura.

- Bem, eu, assim como todos os mendigos, tenho por mãe a Pobreza e pai a Riqueza. Sou pobre por não ter dinheiro mas rico por ter liberdade. Sou um paradoxo para a sociedade, alguém que o sistema não entende. E você sabia que na mitologia existe um deus que também é filho da Pobreza e da Riqueza? O que significa que devo ter pelo menos um ser divino na família – e soltou uma risada gostosa – portanto, vou usar a minha condição privilegiada para lhe conceder um desejo em troca da sua generosidade.

- Igual à estória do gênio da lâmpada?

- Não, não. O gênio deixava os outros escolherem o desejo. Eu vou lhe conceder um desejo que nem mesmo você sabe que tem. Eu vou te apresentar ao amor.

- Sei. Então quer dizer que o amor é um desejo que nem mesmo eu sei que tenho?

- Claro, todos, sejam humanos ou deuses, querem conhecer o amor pelo menos uma vez na vida, nem que seja em um encontro casual na rua ou na internet ou em uma folha de papel.

- Concordo, mas como o senhor pretende fazer isso, perguntei por perguntar.

- Desconfio que você escreva bem, meu rapaz. Apesar de VOCÊ ainda não saber agora, vai descobrir isso no futuro. E um dia, dentre todos os textos que escrever, um será sobre o encontro de hoje, sobre esta conversa. Suas palavras não te garantirão o Nobel, mas serão lançadas como uma flecha certeira, direta, profunda. E, não muito tempo depois, uma certa moça acabará lendo o seu texto. Ela será o alvo. Pronto, o seu desejo, o meu e o dela, cumpridos.

- E o que acontece se eu nunca escrever sobre isso?

- Aí é que está a graça da coisa, meu rapaz. Você já o está escrevendo neste exato momento, na sua cabeça. Depois que a semente de uma história entra na mente é impossível não plantá-la em algum lugar depois. Falo sério quando digo que já vi pessoas ficarem loucas por quererem barrar o que está além de suas forças.

- E se por acaso eu não gostar da moça? E se ela não tiver nada a ver comigo, se ela não gostar de ler... – neste ponto percebi a falha do meu argumento, pois se ela não gostasse de ler não teria lido o meu texto. O velho sorriu.

- Não existem relacionamentos impossíveis neste pequeno universo em que moramos. Estão aí as tragédias gregas que não me deixam mentir. Elas mostram que vale a pena viver e morrer por um amor, seja ele quão diferente for. Aguarde e confie. Até eu me casei e tive uma filha que me dá grande prazer, embora faça muitas coisas por aí que eu não concorde. Mas, é a vida!

De repente, uma colegial passa e deposita uma moeda na tapoer. O mendigo volta-se para ela e pede o celular da garota. Assim como acontecera comigo antes, ela o entrega sem objeção. O mendigo aperta apenas uma tecla e devolve o aparelho, dizendo:

- Pronto, agora ele vai responder as suas mensagens. Tenha um bom dia, mocinha!

Ela se afastou com um semblante confuso e esperançoso. Sem dar mais atenção para mim, o mendigo juntou cuidadosamente as esmolas, o cartaz, o cobertor pega-pulgas e a bengala. Só quando se afastou em seu passo trôpego é que percebi que era cego.

É claro que usei aquela experiência no meu trabalho final. Todo aquele papo estranho parecia um sinal dos deuses universitários que fornecem boas notas aos alunos desesperados. Resultado: reprovei com louvor na matéria. O professor escreveu em garrafais letras vermelhas abaixo na nota: fuga do tema. Logo depois, abandonei o Jornalismo e entrei no curso de Direito. Tinha mais a ver comigo. Hoje, formado, lembro-me de pouca coisa que tenha marcado aqueles dias. Mesmo o que marcou acabou sendo arquivado pela memória em uma pasta de papéis velhos. Não me pergunte por que resolvi publicar agora aqui no blogue a versão virtual do que aconteceu comigo anos atrás. Talvez seja mais fácil perguntar por que eu escrevo. Talvez seja uma maneira de relembrar o passado. Ou talvez colorir com uma pitada de imaginação e fantasia. Afinal, quem escreve o passado é a memória, a melhor ficcionista de todos os tempos. Mas talvez, e esta é uma hipótese que não descarto totalmente, talvez seja apenas meu subconsciente apontando que continuo solteiro e que o cartaz do mendigo não era um erro de grafia e sim uma promessa. Vai que.
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