Nem o diabo pode

- Cornélio, venha cá e me diga o que é isso no colarinho da sua camisa!

- Ca-calma querida, calma que existe uma explicação razoável para tudo na vida.

- Pois comece já a palavrear que se a sua justificativa não for muito boa, mas mais boa que comercial de cerveja Antarctica, vou armar o maior barraco, vou juntar todos os meus trens, vou pegar o Xibiu e vou-me pra casa da mamãe ainda é hoje!

- Mas o Xibiu é meu!

- Por isso mesmo, só pra você sentir na pele o que é ficar sem mulher e sem periquito! - Mas não dá pra ser só um dos dois? Se ficar sem mulher vou precisar do meu Xibiuzinho querido pra me consolar. Ó céus, ó vida, o que vai ser de mim agora?

- Calma, seu abestado. Engole esse choro. Você ainda me deve uma explicação sobre o colarinho.

- Tá bom, hunf, tá bom. O que você quer saber?

- Quero saber por que esse colarinho tá totalmente branco, sem marca alguma de batom!

- Querida, eu, eu vou te contar a mais pura verdade: simplesmente não consigo te trair! Eu te amo. Pronto, falei. É isso, me desculpe.

- Ama, seu vagabundo? Ama? A-há, como você pode dizer que me ama me fazendo infeliz desse jeito! Você saiu pra noitada me prometendo se enroscar com alguma desclassificada e voltar para casa pra depois eu encontrar vestígios e poder brigar contigo, me fazendo de vítima, de coitada, de mulher traída. Aí toda a vizinhança ia ouvir e ficar do meu lado, querendo me confortar, dizendo não, não ligue praquele entojado que ele não te merece, e eu conseguiria fazer amizade rapidinho com as vizinhas da rua, principalmente a Dona Carlota e a Dona Albertina. Até já imaginava o povo querendo me consolar propondo pra te pagar na mesma moeda, os homens me fazendo propostas com os olhares, os cavalheiros bem intencionados querendo lavar a minha honra em seus braços. E eu toda garbosa, me sentindo uma estrela de novela das nove, desejada, única. Mas me diga, Cornélio, como posso ser feliz olhando um colarinho branco igual essa sua cara lavada dizendo que me ama? Diga, diga? E engole esse choro, para agora, engole o choro senão eu não me responsabilizo pelos meus atos!

- Hunf, mas que importa os outros, hunf…rida, quando eu já sinto tudo isso por vo…hunf?

- E eu lá quero que você me ame, me conforte, me deseje? Você é meu marido, marido não é feito pra essas coisas. Aonde já se viu. Agora vá logo tomar banho que ainda vou decidir o que eu faço com você. Não serve pra nada mesmo, bem que papai me avisou. Estrupício!
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