Minguante

(parte 4 de 4)

“Meu namoro com Selena começou dois anos após eu me apaixonar por ela. A partir de então, as várias complicações entre nossas famílias viraram coisa do passado. Eu acreditava que ela me odiava mas descobri ser amor genuíno o que nutria por mim. Ela, a irmã e a mãe, como lavradoras dependentes do trabalho fornecido pelo jovem patrão, passaram a me tratar como um lorde. As duas mães - a dela e a minha - fizeram questão de estreitar os laços familiares. Eu era o ser mais feliz que já nascera neste mundo. Selena era a perfeição de um sonho. A moça delicada, comedida e tímida eu já conhecia. Porém, passei a conhecer uma Selena cujo privilégio era guardado somente aos mais íntimos: engraçada, inteligente e perspicaz. Se não estivesse totalmente apaixonado por ela naquele momento, me apaixonaria novamente. Gostar de Selena era algo inevitável. E ela seria a minha esposa e tamanha alegria não cabia em mim.”

“As semanas passavam e tomei coragem para fazer o que todos esperavam. Dirigi-me à senhora Maan e pedi a mão da filha mais moça. Argumentei que não seria completo sem ela. E que, de todos os bens que eu possuía, nada me era mais precioso que a minha amada, por isso eu daria de tudo a ela. Minha sogra e noiva aceitaram o pedido com lágrimas nos olhos. Apesar da estância estar em tempos de recessão econômica, aquela foi uma ocasião de grande contentamento entre as famílias de trabalhadores da fazenda. Mamãe não abriria mão de um baile para comemorar as núpcias do único filho. Como o único homem em meio à tantas mulheres decididas, só pude me deixar arrastar para cima e para baixo, dia e noite, ajudando nos preparativos da festa. Fora marcada para a semana seguinte e todos os moradores do vale convidados, além de parentes da cidade, de ambas as famílias. Enquanto isso eu e meu amor nos aproximávamos mais e mais. Conversávamos sobre tudo. Selena revelou-se uma exímia conhecedora de história e mitologia antigas e a modéstia só realçava a sua sabedoria. Os traços de melancolia e depressão haviam desaparecido de sua face. “

“Chegara a noite do baile. O pátio em frente ao casarão estava repleto de carroças e cavalos. O galpão maior fora preparado especialmente para as danças e comilanças. Porcos, bois e aves eram servidos junto com vinho, aguardente e rum. Os homens degustavam os charutos enrolados na própria fazenda. A música da banda era ouvida à quilômetros noite adentro. Selena era a princesa encantada e eu o bobo da corte, pois não parava de sorrir um só minuto. Dançamos muito pouco pois a multidão de convivas nos afastava constantemente. Os homens queriam falar de negócios e as mulheres dos preparativos do casamento. Em um momento em que me sentei para descansar, ouvi sem querer a conversa de um tio de Selena que viera da cidade. Sem dar-se conta que eu o escutava, comentou que Selena era afortunada depois do que acontecera com ela no passado. Um antigo pretendente a humilhara tanto que ele achava praticamente impossível a coitada recuperar-se. Fora o motivo que levara a família Maan mudar-se para o campo. O tio comentou que o crápula primeiro seduzira a sobrinha e depois passou a abusar da pobre moça. A xingava em público e a forçava a fazer os piores trabalhos, tratando-a como escrava. O tio não duvidava dela ter sido abusada física e sexualmente. O mais estranho, concluiu, era a passividade dela diante toda essa humilhação, defendendo o pretendente perante os outros. Se não fosse a intervenção da família provavelmente ela estaria naquelas condições até hoje. Aqueles comentários não duraram mais que alguns minutos mas foram suficientes para me afetarem sobremaneira. Eu me esquecera totalmente do episódio que levara a família Maan a mudar-se para a Estância Serenidade. Os detalhes nunca haviam me importado até então. Agora pareciam não abandonar os meus pensamentos. Durante todo o baile, só pensava em Selena com o meu antecessor. Ao fim da festa tive de mentir o meu semblante taciturno ser cansaço e que precisava dormir. Mas os primeiros raios de sol encontraram os meus olhos ainda abertos.”

"Não compreendia como alguém era capaz de machucar uma flor doce e delicada como Selena. Ela era o sonho de todo mancebo com o mínimo de juízo. Os dias passavam e minha admiração por ela crescia, porém agora com um misto de pena. Olhava-a como um passarinho que havia sido maltratado por um caçador e agora tentava novamente os seus primeiros voos. Um homem capaz de ser tão vil era o ser humano mais baixo que jamais existira. Era odioso. Meu sangue fervia ao pensar no crápula humilhando  minha querida. Ela agora tinha quem a protegia. Eu mataria quem se aproximasse dela. Já matara no passado, não seria difícil fazê-lo novamente, ainda mais com alguém que merecesse. Ah, se eu encontrasse o sujeito ele pagaria por tudo o que fez. Sim, ele deveria pagar. Sim, ele iria pagar. Eu não conseguiria dormir tranquilo enquanto não o fizesse pagar. Sutilmente, pedi informações a Selena sobre o paradeiro de seu antigo amor, mas ela sempre mudava de assunto. O mesmo acontecia com a mãe e irmã. Mas a raiva me consumia por dentro. Não me aguentando mais, intimei que Selena revelasse o nome e o paradeiro do monstro. Ela ficou furiosa e disse que nunca me diria, pois sabia que eu tomaria uma atitude impensada. Foi quando percebi: ela ainda o amava.”

“Quem, dentre todos os mortais, ficaria impassível diante da notícia que o ser mais desejado ama a outro? Comecei a insistir veementemente com Selena para que revelasse as informações escondidas. Nossas brigas ficaram constantes. Eu não suportava a ideia dela protege-lo depois de tudo que fizera com ela. Selena precisava revelar quem era para que eu tivesse certeza de que me amava. Foi quando pensei: e se ele a houvesse maltratado tanto ao ponto dela ficar dependente daquele tipo de relação? Eu não suportaria vê-la amando a outro, então decidi fazer o mesmo. Ela me amaria tanto quanto o amara. Comecei a humilhar Selena. Era isso que ela gostava? Então teria em abundância. A tratava como serviçal, xingando-a e desprezando-a a todo instante, independentemente dos apelos de minha mãe e de outros. Porém, ela continuava serena, o que aumentava mais minha certeza de estava no caminho certo. Foi quando lembrei-me de uma máxima dos tempos de academia: se era insanidade fazer a mesma coisa e esperar resultados diferentes, se eu fizesse a mesma coisa que outro fizera teria os mesmos resultados. Maltratando-a eu não só a faria me amar como também o encontraria. Como não havia pensado nisso antes? Seguindo fielmente todas as atitudes dele, fazendo tudo igual, acabaria exatamente no mesmo lugar em que ele estava. Esta era a solução, eu mesmo descobrira como encontrá-lo. Resoluto, invadi a casa de Selena e apliquei-lhe uma surra. Não pararia se não fossem os homens a mando de mamãe terem me segurado. Me amarraram, mesmo eu me contorcendo e mandando que me soltassem, pois agindo assim prejudicavam o meu noivado. Eu precisava fazer aquilo pelo amor de Selena. Foi quando me internaram.”

- E aqui estou, meu amigo, junto a você, talvez meu rosto não consiga demonstrar a extrema felicidade que sinto ao finalmente encontrar a minha cura. Lembra-se de nosso primeiro encontro? Estava extremamente feliz por meu plano ter dado certo, por ter sido levado para o único lugar que alguém com aquela atitude poderia estar. Por me colocarem como companheiro de alguém com problemas semelhantes aos meus. Enfim, de me apresentarem o ex-pretendente de Selena em carne e osso, você, senhor Ferdinando.

O olhar do senhor **** era insano e eu pressentia que ele falava sério. Eu precisava encontrar um meio de me soltar. Forçar as cordas enquanto desviava a sua atenção à minha conversa.

- Por favor, me desamarre, eu não sei do que você está falando, não conheço e nunca vi nenhuma Selena. Você veio para cá porque estava com problemas, assim como eu, mas os nossos casos são diferentes, deixe-me contar e você verá que...

- Se eu fosse o senhor, Ferdinando, não tentaria forçar muito os seus braços. Estas tiras são bem resistentes, eu mesmo as confeccionei. Levou algum tempo para eu imaginar como poderia dominá-lo, até ver como as faixas usadas na enfermaria como curativos quando enroladas produzem uma linha inflexível. Uma destas linhas é perfeitamente rompível pela força de um homem, mas como eu trancei algumas delas, consegui elaborar uma corda que não cederá sem lhe cortar os pulsos. Genial a ideia de sofrer um acidente com queimaduras para ter várias destas tiras a disposição aqui no quarto, não?

A situação não estava nada boa para mim. Ele pegara desprevenido, dormindo. Até mesmo o livro que eu pensara usar como defesa estava agora caído ao meu lado. Me descuidara depois dele fingir ser meu amigo. Agora me encontrava com as duas mãos amarradas na cabeceira da cama de ferro e com ele sentado em minhas pernas. Totalmente imobilizado. À sua mercê.

- Podemos conversar, por favor, eu repito: você pegou o homem errado. Tenho provas. Eu conto a minha história...

- Não precisa mais, sei que estou certo. Hoje é o meu dia de redenção com Selena. Depois de mata-lo ela vai me aceitar de volta. Adeus, cretino...

- Eu, argh... nã

Mãos. Apertam. Pescoço. Sufoca. Ele não vai me vencer tão fácil, posso me debater a noite toda. Se ele é perturbado eu também sou. Mais um pouco e consigo me soltar. Estou ficando exausto, fraco, mas não posso desistir. O som desapareceu. Pare. Por favor. Não. O livro está aberto ao meu lado.

As palavras são a herança da humanidade. Sobreviverão a guerras e mudanças de governo, catástrofes e holocaustos, sobreviverão mesmo à própria humanidade. As palavras são o que contará a história, o fruto evolutivo de uma raça extinta, o invólucro da centelha divina, o último grito não saído da garganta.
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