Nova

(parte 1 de 4)

No começo, existia apenas o silêncio. Calado. Sozinho. Esperando. E quando o som criador trouxe o suspiro, o sussurro, o murmuro, o zumbido, o chiado, o guincho, o estampido, o barulho, o ruído, a fala, o canto, a música, o berro, o grito, o estrondo, o alarido, a algazarra, a explosão e, por fim, a surdez, nada mais permaneceu como era. Exceto o silêncio. Ele continuou calado. Sozinho. Esperando.

Levou apenas cinco segundos. Um. A porta do quarto abriu-se e os brutamontes carregaram o homem desacordado para dentro. Dois. O depositaram sem muita cerimônia sobre a cama e desataram as mãos. Três. Saíram e trancaram a porta. Quatro. O homem abriu os olhos e sentou-se. Cinco. Olhou para mim e sorriu.

Havia algo naquele sorriso que me incomodava. Era o tipo de sorriso dado quando sabem de algo que você desconhece e não fazem questão de que isto mude. Ou um sorriso de alguém extremamente feliz, como se tivesse alcançado um prêmio. Tentei disfarçar retornando ao livro que lia, mas com a minha cama a dois metros era apenas uma questão de tempo até ser interrompido. Por ele ou pela curiosidade. Porém, foi ele quem tomou a iniciativa.

- Desculpe interromper, amigo, mas reparei o título do livro que você está lendo, O Livro das Ausências, e acredito que talvez não haja nada mais adequado para definir este lugar. A começar pelas cores. Por que tudo aqui tem que ser branco? Paredes, roupas de cama, uniformes, até mesmo o aroma que impregna o ar parece-me branco. Será que talvez acreditem que nos privando do contato com cores, ambientes, aromas, sons e pessoas vão nos curar mais rápido, forçando a multiplicidade de nossos pensamentos a se tornar una, coesa e melhor categorizada como algo próximo da normalidade?

Diante de meu olhar indicando que seria a minha única resposta, ele prosseguiu.

- Mas que grosseria a minha, meu nome é *** e sou um pequeno proprietário de terras na região de ***. E o seu nome é? … Bem, talvez o senhor seja do tipo calado, não? ... Eu não quero soar como um intrometido, apenas espero que minha estadia nesse estabelecimento seja a mais breve possível e, como estamos a sós, talvez pudéssemos usufruir da companhia um do outro para tornar o tempo aqui, como posso dizer, suportável. O que o senhor acha?

A fala do homem indicava se tratar de um cavalheiro, com uma certa educação e bons modos, apesar de ter uma tendência levemente irritante a repetir a palavra talvez e a fazer perguntas em demasia. Contudo, ainda era cedo para travar uma amizade. Eu precisava descobrir que tipo de problema o meu novo colega de quarto tinha. Apesar da minha postura despreocupada, estava com todos os meus sentidos alertas para que, ao menor sinal de ataque, usasse o livro como escudo. Era um volume de capa dura e bom peso que poderia facilmente também ser usado para contra-atacar. Os enfermeiros se esqueceram deste detalhe, para a minha sorte.

- Engraçado como são as circunstâncias da vida – continuou – o senhor sabia que se aqui eu não estivesse, a esta hora estaria contraindo matrimônio? Isso mesmo, apesar de ver em seu olhar a expressão de surpresa e dúvida, juro pelo que existe de mais sagrado que é a mais pura verdade. Faz a gente pensar nas possibilidades, talvez coisas como universos paralelos e hipóteses espaço-temporais, não? Mas não vou lhe incomodar com os detalhes sobre a minha desventura com a doce Selena, deixo-o retornar à sua leitura.

Se fosse um jogo de xadrez, poderia jurar que ele acabara de pôr em xeque a minha curiosidade. Todavia, provavelmente ele também estivesse procurando me analisar, descobrir qual a minha neurose e com os mesmos receios que eu sobre os perigos de se ter um companheiro desconhecido num lugar como este. Resolvi me arriscar sacrificando o meu cavalo para descobrir a próxima jogada dele. Fechei o livro e o coloquei ao meu lado na cama. Depois, fixei os meus olhos atentos em meu colega. Isso pareceu animá-lo.

- Muito bem, muito bem. Excelente, meu amigo, antevejo que nos daremos muito bem. E como sinal de minha simpatia pelo seu ato, irei narrar-lhe a sina que me trouxe até aqui e causou a minha ruína amorosa. Talvez possamos ser amigos.

Talvez.

“Tudo começou há três anos, quando terminei os estudos na capital e retornei à Estância Serenidade, no município de ***, a fim de cuidar as terras que haveria de herdar. Como filho único, fui acolhido com lágrimas pela minha velha mãe e esperanças pelos leais empregados. A estância localizava-se em um bonito e amplo vale cercado de montanhas. Apesar de produtiva, não apresentava ser uma tarefa fácil retomar a glória e riqueza do passado. Salvo uma parca plantação e criação de animais caseiros para a subsistência, a terra estivera abandonada desde que meu pai falecera. Aguardava pacientemente o regresso do filho doutor, diplomado pródigo. Mas eu estava motivado a me fazer tão respeitável quanto meu pai fora. A primeira medida que tomei foi espalhar pelas cidades e vilas próximas a notícia que estávamos contratando agregados. Em poucos dias, as famílias começaram a chegar para as entrevistas. Contratei quatro ao todo. Dentre elas, estava a família Maan, de ascendência holandesa. O senhor e a senhora Maan viviam na cidade com três filhas moças e buscavam os ares campesinos para melhorar a saúde de uma das filhas. Eles ficaram estabelecidos no casebre mais próximo à sede e eu nem imaginava que ali começava a melhor e ao mesmo tempo pior época da minha vida.”

“As semanas se passavam e eu quase não tinha tempo para parar na estância. As minhas visitas ao banco eram frequentes. Precisava de dinheiro para comprar sementes e ferramentas, além de alguns animais para iniciar a produção de leite, ovos e carnes. A vida no vale fervilhava. Os agregados honravam a sua parte do acordo trabalhando de sol a sol. Minha mãe lembrava com nostalgia os bons anos de papai. Ela fazia questão de convidar a cada domingo uma das famílias dos trabalhadores para almoçar, com a desculpa de conhecê-los melhor, mas sempre suspeitei que era para ter ouvidos inéditos às suas histórias. Em uma destas ocasiões, conheci as senhoritas Maan: Einódia, Diana e Selena. Todas muito belas, de pele e olhos claros como é característico dos povos neerlandeses. Porém, cada senhorita possuía características próprias que as distinguiam das irmãs. Por exemplo, Einódia, a mais velha, costumava ser vista sempre acompanhada por um grande cão negro como seu guardião aonde quer que fosse. Revelou que gostava de passear com ele pelas estradas à noite. Possuía olhos incisivos e mandava nas irmãs. Provavelmente, sem imposição de um gênio forte, mandaria em qualquer um que a conhecesse. A filha do meio, Diana, despertou a atenção de minha mãe ao confessar ser contra o casamento, pois desejava ser livre para andar pelos bosques e fazer coisas que os homens normalmente proibiam às esposas, como caçar ou lutar em guerras. Isso ia de encontro à opinião conservadora de mamãe, que acreditava ser uma verdade universalmente velada pela mulher a obrigação de oferecer-se como esposa ao homem solteiro em posse de uma boa fortuna. Por serem de índoles tão contraditórias, mamãe e Diana simpatizaram de imediato uma com a outra. E, por último, Selena, a caçula, era a filha silenciosa e comedida. Com uma tez um tanto quanto abatida para o meu gosto, era a filha enfermiça e, por isso, cercada de mimos e cuidados. Comentava-se que fora por causa dela que a família mudara-se para o campo. Os fuxicos diziam que na cidade, ela havia entrado em um desânimo profundo depois de uma forte desilusão amorosa. Eu a observava e pensava se fora este fato que teria afligido tristeza à sua personalidade deixando-a tão distinta das irmãs ou se ela era já era assim antes. Aquela melancolia aparente a tornava única em uma família que exalava geniosidade e impetuosidade. Selena parecia brilhar em meio à noite escura.”

“Depois daquele dia, não sei quais foram os mecanismos subconscientes em mim que iniciaram uma ação paulatina para me atormentar, fazendo-me sonhar com Selena durante as noites e vislumbrar o seu rosto durante os dias. Eu procurava pensar no trabalho, que começava a produzir os seus primeiros frutos. Tentava fantasiar imposições que a tornassem menos atraente aos meus olhos: ela deveria ter o mesmo gênio indomável das irmãs, ou que a sua condição mais baixa não a tornava o melhor partido para mim e minha mãe vivia sugerindo damas de igual posição nas redondezas. Contudo, nada funcionou e eu me perdi tolamente quando Eros deixou um presente cravado em meu peito, uma seta em forma de S.”

“Minha mãe percebeu a minha mudança de ânimo e minhas frequentes visitas à residência dos Maan e me aconselhou a ter cautela. Ela e Diana conversavam sobre a minha postura diante de Selena e caçoavam da minha falta de jeito. Hoje, lembrando aquela época, acredito que todos percebiam, mas não o demonstravam claramente por respeito à minha posição. Quando confessei abertamente à minha mãe o desejo que crescia em mim por relacionar-me com Selena, ela mandou chamar o Senhor Mann e fez apenas uma exigência: Selena deveria revelar os detalhes sobre o incidente ocorrido na cidade antes de qualquer entendimento entre as famílias. Era preciso saber se ela ainda era uma moça honrada. A natural exigência de minha preocupada mãe, é claro, foi recusada de imediato pelo patriarca dos Maan, enterrando quaisquer esperanças que eu tivesse com Selena.”

(Continua...)
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