Série Cartas: RANCOR

Cara senhora Beatriz,

Pra encurtar o assunto: eu não te amo, nunca te amei e não sei se quero te amar. Aliás, eu sei: não quero. Prefiro ser direto e simples para você não criar expectativas errôneas a meu respeito. Você nem mesmo deveria ter aparecido na minha vida, eu estava tão feliz, pensando em meu futuro, mas dizem que sempre há algum invejoso para atrapalhar os nossos planos, pra nos mostrar o lado feio da vida.

Lamento se sou rude, mas é inevitável que seja assim, foi você quem começou. Mas eu não sou rude com os que me rodeiam e me conhecem ou com os a quem eu amo e que me amam. Feliz ou infelizmente, você não se encaixa em nenhuma destas categorias: não me conhece, não é alguém que eu amo e duvido que me ame. Se tivesse me amado não teria feito o que fez. Me poupe de sua ladainha tentando se justificar para si mesma dizendo que você era imatura, despreparada, insensível e que sofreu muito por mim e que hoje virou uma pessoa diferente, melhor. Pois se seu sofri por você, nem lembro mais. A minha vida é maravilhosa, tenho a pessoa certa ocupando o seu lugar.

Portanto, pedir para me conhecer melhor e fazer parte da minha vida após me abandonar quando eu era bebê é algo além das minhas possibilidades. Você nunca foi a minha mãe e eu nunca fui o seu filho a não ser durante os nove meses em que me carregou por aí, provavelmente contando os dias para se ver livre de mim. Não duvido muito que tenha até tentado evitar levar essa carga tomando algum remédio abortivo. Pois bem, sobrevivi e não foi graças a você. Foi Deus que olhou por mim, e me colocou nos braços da Dona Ana e do Seu Waldir, meus verdadeiros pais.

Se realmente deseja o meu bem, como afirmou várias vezes, suma da minha vida, desapareça, me esqueça, pois a dor e a vergonha por ter você na minha frente é insuportável para mim. E se você quiser ser chamada de mãe, imite o exemplo dos meus pais, adote algum rejeitado que precise de amor de verdade, e o trate como o ser mais precioso que existe para você, dando a sua vida por ele, e quem sabe, poderá sentir-se novamente incluída na raça dos seres humanos ao ouvir a palavra mãe ser dita por alguém que te olhará nos olhos.

Cordialmente,

Pedrinho
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