Talvez uma história de amor, de Martin Page


Só existe uma forma de não nos arriscarmos a perder aqueles que poderíamos amar. É não permitindo que eles entrem em nossa vida.

Na vida, oscilamos entre as dores que nos impõem e aquelas que impomos a nós mesmos. Um belo dia, descobrimos que são as mesmas.

É mais confortável ter amigos do que amigas. As mulheres captam coisas demais. No que se refere a elas próprias, são verdadeiras e catastróficas toupeiras, mas veem a situação dos outros com enorme clareza. Analisam, decifram, comentam e sugerem. Já os homens se limitam a conselhos simplistas e despropositados.

Espontaneamente, quando imaginamos o nosso parceiro ideal, desenhamos a nós mesmos, sem as lacunas ou as fragilidades e com o sexo que mais nos convenha.

No estranho universo das relações sentimentais, a fusão leva à fissão.

Passara a vida tentando não chamar a atenção. Era uma questão de sobrevivência. Chamar a atenção implica dois tipos de perigo: expomo-nos aos golpes e ao esquecimento. Mais prudente é manter-se em um claro-escuro sem glórias.

O cristianismo enfiou a ideia de verdade na cabeça das pessoas com o uso de torturas e tribunais da Inquisição. Mas, desde que se deixou de levar feiticeiras à fogueira, perseguir judeus e defender a escravidão, a mentira parece bem mais adaptada à vida social.

A ideia da morte é mais grave do que a própria morte, pois nos persegue a vida inteira.

Como as relações sexuais, a morte também requer preliminares. O cansaço, as desilusões e as doenças são as carícias e os beijos que relaxam os músculos e permitem à morte que nos leve suavemente.
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