A revolução das espécies


Existem dois caminhos possíveis quando uma espécie é explorada ao extremo por outra mais avançada: a extinção total ou a evolução. Contudo, nem os cientistas mais audaciosos, ou pessimistas, poderiam prever que a próxima espécie dominante no planeta não surgiria a partir do homem, dos animais ou de alienígenas vindos do espaço. Por isso, ninguém estava preparado quando as plantas fizeram a sua revolução evolutiva. Cansadas de presenciarem companheiras sendo extintas diariamente e de serem massacradas sem piedade por milênios, resolveram adaptar-se. Passaram de dominadas à dominadoras. Não se sabe muito bem como tudo começou, mas os efeitos foram rápidos e globais no modo de vida do seu principal inimigo, o homem.

Na Amazônia, algumas árvores assumiram um grau de resistência maior que o material mais duro conhecido até então, resultando na inutilidade e aposentadoria precoce de machados, serras-elétricas e tratores de esteira. Nada sequer arranhava os seus caules perfeitamente petrificados. Mesmo se deparando com esta transformação estranha, a ganância e o desejo de destruir do homem não se abalou: passou a atacar o mal pela raiz, literalmente, só para descobrir que estas, as raízes, além da mesma rigidez do caule, enterravam-se imediatamente no mais profundo do solo assim que escavadas. Tentaram queimar as árvores, mas o fogo só mudava a tonalidade marrom-esverdeada para uma cinza-escura, mantendo o segredo de sua recém-adquirida força em silêncio tão impenetrável quanto o seu caule. As manchas deixadas pelo fogo se assemelhavam às pinturas tribais de guerra. Era a tribo de sangue verde contra a de sangue vermelho.

Nas pradarias, descobriu-se que podar os arbustos ou gramíneas era tarefa igualmente difícil. A vegetação rasteira aprendeu a formar colônias e a desenvolver a capacidade de se multiplicar com tamanha velocidade, que ao se cortar um ramo outros quinze iguais surgiam logo em seguida no lugar do corte. Nas cidades, a cena era mais assustadora, com relatos de gente indo dormir com um vasinho ornamental na cozinha e acordando com a casa como uma mata fechada. E foi assim que áreas antes desertificadas, seja pela seca ou pelo concreto, em pouquíssimo tempo foram invadidas por arbustos e trepadeiras. Até mesmo o ar rarefeito dos cumes das montanhas e as temperaturas rígidas das regiões árticas não seguraram o avanço verde. A adaptação e multiplicação era quase em tempo real. Ao analisar como as plantas conseguiam alimento em ambientes hostis, verificou-se que elas passaram a absorver e metabolizar minerais de fontes das mais diversas: lixo, gelo, areia, concreto etc. Alguns concluíram que a poluição, de certa forma, nutria muito mais a nova geração de plantas, depois que analisaram aterros e lixões sendo vorazmente consumidos tal qual um prato preferido em um lauto banquete.

Outra espécie vegetal, proveniente do território chinês, optou pelo crescimento desproporcional. A planta adulta, em menos de um mês atingia a altura de um prédio de três andares. Quando era atacada por homens e máquinas, revidava deixando cair sementes e grãos de pólen gigantes capazes de destruir completamente qualquer coisa que ousasse ficar embaixo. Mas o pior tipo evolutivo apareceu na África: a versão bizarra, e melhorada, das plantas carnívoras. Na verdade, eram trepadeiras que optaram por consumir os nutrientes existentes em homens, carros, estradas aos que antes eram retirados do solo. Ferro, zinco, água, potássio, entre outros, eram sugados dos que dessem o azar de estar ao alcance de algum dos seus tentáculos verdes. Estes rapidamente prendiam-se às vítimas e as arrastvam para o bulbo central, uma mistura de boca e estômago. A pressão fortíssima, junto com incontáveis tentáculos auxiliares, fizeram com que poucos sobrevivessem para contar a história. Além do que, a seiva gástrica expelida nas vítimas dentro do bulbo dissolvia metal, carne e osso como se fossem papel.

Entretanto, nem todas as espécies novas matavam humanos. Algumas aprenderam a usá-los em seu benefício. Uma planta espirradeira, do Canadá, lançava grãos de pólen do tamanho de ovos nos humanos que pregavam e não saíam de modo algum. Ficavam de tal forma grudados na pele que nem mesmo os mais habilidosos cirurgiões atreviam-se a removê-los. Alguns até tentaram, mas desistiram após obterem algumas mortes por mutilação. Somente se o humano infectado passasse próximo a uma outra planta da mesma espécie, ele se veria livre, pois a planta produzia uma gosma que descolava os ovos enquanto era fertilizada por eles. Enquanto os cientistas apelidavam os humanos infectados de abelhas, a população os chamava de aberrações.

A densidade demográfica humana reduziu-se paulatinamente de bilhões a milhões, de milhões a milhares e de milhares a centenas, e chegariam à beira da extinção, se não fosse um detalhe insignificante que as plantas não notaram, até ser tarde demais: era chegada a vez de o homem evoluir.
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