Como matar um bicho-papão - Parte IV: O TRAUMA

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Um sorriso irônico. Um suspiro apressado. Mãos suadas na calça. Andréa tentava disfarçar o nervosismo, apesar de estar sozinha em casa. Dissimulou ao pensar em voz alta que trauma era coisa de gente rica. Pobre não tem estas frescuras. Seria cômico alguém afirmar que ela, justo ela, uma mulher simples, tinha um trauma de infância por culpa de um desconhecido. Hilário. Ensaiou uma gargalhada, mas esta acabou não saindo tão natural como queria. Procurou racionalizar o que se lembrava da infância: sonhos, decepções, sofrimentos, brigas, enfim, coisas que existem em toda família normal e nem por isso são traumas. Traumatizada era o adjetivo que não combinava com o substantivo próprio Andréa.

A carta que ela tinha em mãos estava começando a soar totalmente infundada e sem cabimento. Mal sabia ela que o pior ainda estava por vir. Quando uma carta póstuma é enviada afirmando que o verdadeiro pai fora assassinado pelo homem até então considerado o progenitor, que outras afirmações inimagináveis também não poderia surgerir? As palavras não conhecem limites, a imaginação sim. Se a imaginação seguir a trilha deixada pelas palavras corre o risco de conhecer lugares de que não gostaria.

"Eu tentei me aproximar de você, mas Cairo não deixou. Então eu passei a te observar à distância na escola ou brincando na praça. A minha rotina era te amar em silêncio e sozinho. Mas havia um pedófilo ameaçando a cidade. Três crianças já haviam desaparecido. Um dia percebi que um estranho te seguia. Quando você se afastou das outras crianças, ele te atacou. E eu a ele. Defendi como uma fera a minha menininha daquele monstro. Rolamos pela rua. A briga foi feia e uma multidão nos rodeou assim que soube que era com o pedófilo. Mas quando nos separaram, eu o acusava e ele a mim. E Barrabás ganhou. A dúvida acabou quando um dentre a multidão apontou o dedo. Era Cairo e apontava o dedo para mim. Foi o gatilho para que o povo enlouquecido me linchasse ali mesmo."

A memória de Andréa começava a esboçar uma vaga lembrança daquela cena. Ela era pequena, contudo lembrou-se de assistir a multidão linchando ferozmente o homem caído na sua frente. Todavia, Andréa nunca encarou tal episódio como algo traumatizante. Ela não conheceu nem sentiu emoção alguma por aquele homem que apanhara até a morte, quem quer que ele fosse. Ao contrário, lembrou-se que depois daquele dia Cairo começou a tratá-la melhor que os seus irmãos. Deu-lhe atenção, carinho e proteção especiais que jamais tivera antes. Enfim, aquele ato de violência do passado tornou possível com que o sonho de uma menininha se concretizasse, ter a certeza do amor paterno.

"Mas não é esse o trauma a que me refiro, Andréa. Você sabe que é aquele que você esconde no íntimo, que sente vergonha ao lembrar, que te faz chorar quando está só. É o motivo de você ter brigado com a sua mãe e ela ter tentado te matar. O trauma a que me refiro é você dormir desde os 12 anos de idade com Cairo, o homem que acredita ser o seu pai. De ter dois filhos com o pai-marido enquanto a sua mãe definha em um hospício. Cairo não se contentou em me matar, ele descontou em você todo o ódio que tinha por mim e por Alessandra. E, desta vez, eu deixei a minha menininha no escuro com o bicho-papão."

[Continua: Parte V: Final]

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