Memorial do Convento, de José Saramago


É cisma de metade do mundo a curiosice pela vida da outra metade, que aliás lhe paga na mesma moeda.

Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas.

Se não houvesse tristeza nem miséria, se em todo o lugar corressem águas sobre as pedras, se cantassem aves, a vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas, por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância, que descobri-las não valeria a vida duma flor.

O mundo de cada um é os olhos que tem.

Por que será que os velhos se calam quando deveriam continuar falando, por isso os novos têm de aprender tudo desde o princípio.

Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.

Todo homem sabe o que tem, mas não sabe o que isso vale.

Nem sempre se pode tudo, quantas vezes pedindo isto se alcança aquilo, que esse é o mistério das orações, lançamo-las ao ar com uma intenção que é nossa, mas elas escolhem o seu próprio caminho, às vezes atrasam-se para deixar passar outras que tinham partido depois, e não é raro que alguma se acasalem, nascendo orações arraçadas ou mestiças, que não são nem o pai nem a mãe que a tiveram, quando calha brigam, param na estrada a debater contradições.
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