Ganhou um livro que não quer ler: o que fazer?

É uma pergunta que levanta pontos de vista bastante individuais, não só dos que ganharam livros mas também  dos que deram. Sem chorumelas, revelo em primeiríssima mão que eu, JLM, passo o livro adiante, sem pensar duas vezes, sem remorso, sem dó. Os amigos podem até ficar tristes, mas recomendo que prestem atenção nos meus motivos abaixo, racionais ao extremo, que até mesmo poderão lhes serem úteis.

Antes, algumas perguntas retóricas para os seus botões:

1. Se você ganhou um presente (qualquer coisa, não só livro), ele é seu, não é? Teoricamente você poderia fazer o que quisesse com ele: vender, doar, jogar fora, usar como carvão ou enterrar no quintal, certo?

2. Se você ganhar algo que não tem nada a ver com o seu jeitão, algo que te deixou com cara de bocó tentando descobrir qual a intenção de quem deu o presente (foi brincadeira ou foi a sério? neste último caso, quem deu tem problemas psicológicos?), você tenta usar o presente por uns dias só por desencargo de consciência ou o esconde de tudo ou de todos morrendo de vergonha de ter aquilo em casa?

3. Se você é conhecido entre parentes e amigos como leitor assíduo e só ganha livros por causa disso, já percebeu que alguns presentes são simplesmente de gente querendo desencalhar livros que não leram, não vão ler e só tomam espaço na casa deles?

4. Você lê muito ou pouco? Qual a sua filosofia de vida em relação à leitura?

As perguntas são propositais para melhor introduzir ao assunto. Eu disse que eram apenas retóricas, mas menti. Vou usá-las para explanar os meus motivos pessoais. Começo respondendo da última para a primeira.

4. Eu sou um leitor estatisticamente acima da média (cerca de 10 livros ao mês) e não tenho tempo a perder com o que não me interessa. Minha vida é curta frente à quantidade de livros que quero ler. Então, assim como tenho uma lista do que desejo ler também tenho uma do que não vou ler. Por exemplo: nunca lerei Stephenie Meyer, E. L. James, Fabrício Carpenejar, Chistopher Paolini, Eduardo Spohr, entre outros. Não é pré-conceito, é saber ouvir comentários e críticas sobre determinados autores e identificar que o que eles escrevem não é o que você lê. Agora, em uma hipótese mental de que eu lesse somente um livro por ano, e ganhasse um ou dois livros, também acredito que não me focaria neles e sim nos que eu me interessasse.

3. e 2. Poucos são os que conhecem intimamente os meus gostos literários. Até porque sou um tanto quanto eclético com leituras que nem eu consigo descrever os meus gostos literários. Assim, para ganhar um livro que combine comigo, ou a pessoa vai olhar na minha lista de desejados no Skoob ou vai me perguntar qual eu quero. Fora isso é um tiro no escuro. Eu mesmo me considero muito sensitivo para indicar leituras a quem conheço, com pensamentos do tipo “aquele livro combina com tal pessoa” e costumo acertar mais que errar nos presentes. Mas já cometi gafes estranhas. Certa vez dei de presente para uma amiga casada o livro “101 maneiras de enlouquecer uma mulher na cama”, pensando que ela o passaria para o marido e seria feliz com isso. Mas até hoje o casal pega no meu pé dizendo que ela não é lésbica não. My fault. Então, a probabilidade de eu ganhar um livro que não goste é grande, quando não conhecem ou perguntam do que gosto. E ganho muitos livros (geralmente SÓ ganho livros) e como não tenho apego nem mesmo aos livros que gostei e não vou reler, passando-os adiante tão logo seja possível, quanto menos com os que não me identifiquei com o tema, estilo, autor, título ou cor da capa. Hoje qualquer desculpa me serve para não ler um livro. São eles, os livros, que têm que me convencer que valem a pena eu gastar algumas horas em suas companhias. Sou um cara difícil de ser conquistado.

1. Aqui entra muito das regras de etiqueta social. Passar um presente adiante ainda é visto como ofensa. Mas vejo esse pensamento é arcaico. Com algumas pessoas mais íntimas eu poderia ser sincero e tentar devolver o presente dizendo que ela errou totalmente e que eu não vou usar aquilo, não vou ler aquilo ou não vou botar aquilo na boca de jeito nenhum. Ou, com pessoas que não sou tão desembaraçado assim, ao invés de esquecer o presente em um baú velho e acumular mais tralhas inúteis como aquele tio estranho, passo o item para frente. Doo. Troco. Vendo. Mas se for doá-lo, simplesmente não passo a maldição para frente: dou o presente para alguém que vai usá-lo de verdade. Se for trocá-lo (o escambo é uma prática muito comum em algumas cidades ou feiras de bairros, além da internet, é claro) pode até ser por um objeto que valha menos, mas que será mais útil para mim. Se for vendê-lo, terei a certeza de que quem comprar quer aquilo de verdade (sabe-se lá porquê) e saberei aproveitar bem o dinheiro que entrar.
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