Luva Branca precisa de você

O dia amanhecia quando o delegado federal Paulo Soares Júnior preparava a equipe para o cumprimento daquele mandado de prisão. A expectativa pela ação que se aproximava gerava uma tensão na equipe que espantava o frio da manhã e o sono da noite mal dormida. O delegado olhou para o relógio, rigorosamente cronometrado com o das equipes em outras cidades do país, para que todos os suspeitos fossem surpreendidos ao mesmo tempo. Como o encarregado da maior investigação dos últimos tempos no Brasil, Soares Jr., apelidado Esse-Jota pelos companheiros, não admitiria falhas. Nem poderia falhar: a cobrança sobre si era grande como nunca antes fora sobre um delegado federal. Mas ele sabia que era normal, afinal, nunca antes na história um presidente da república havia sido assassinado. Ou melhor, não um presidente qualquer, mas a primeira presidenta mulher do Brasil: a falecida petista Dilma Rousseff.

Os pássaros faziam algazarra nas árvores anunciando que o dia começava feliz para eles. Mas era apenas música de fundo. O único som que importava, e que todos ouviam antecipadamente, era o alarme do relógio de puso do delegado SJ. A equipe toda atenta ouviu o alerta e as ordens do chefe, vai vai vai. Uma kombi velha foi parada à rua para que todos os policiais encapuzados e usando coletes pretos com os dizeres Polícia Federal escritos em laranja seguissem correndo para a residência-alvo. Um cachorro latiu na casa ao lado. O policial da vanguarda tocou a campainha. Quando uma voz masculina perguntou quem é do outro lado da porta, a resposta pareceu ecoar pela madrugada. É a polícia federal, abra essa porta. Todos estavam taticamente em posição, preparados para entrar, quando o barulho da fechadura fez-se ouvir. A figura de um homem de terno não era o que esperavam. O homem era muito mais novo que o suspeito que seria detido, após abrir a porta levantou as mãos calmamente, segurando uma folha de papel em uma das mãos.

- Esta é a casa do senhor Olavo Caetano? Temos um mandado de prisão para ele.

- Não, senhores, eu sou o advogado do senhor Caetano. Estávamos aguardando pelos senhores. Se tiverem a gentileza de olharem o papel que estou segurando, verão que se trata de um Habeas Corpus preventivo. Os senhores não poderão levar o meu cliente.

Diante da indecisão do policial, o delegado Soares Jr. tomou a frente. O nervosismo o impedia de prestar atenção aos detalhes, mas o fax do documento parecia legítimo. Emitido por uma instância superior à do mandado de prisão, um conhecido ministro do Supremo Tribunal Federal, revelava pela data e hora de expedição que fora enviado poucas horas antes, naquela mesma noite. O delegado tinha de reconhecer, mais uma vez o Judiciário atrapalhava o seu trabalho. Cada vez mais o sentimento dos policiais era perguntar-se de que adiantava investigar e prender os criminosos se os juízes os soltassem logo em seguida. O olhar desanimado olhou para os outros que aguardavam alguma ordem sua, mas o que ouviram foi só um pedido para todos voltarem aos carros. O advogado na porta sorriu e o delegado pensou no quanto queria dar uma porrada bem dada no meio daquele sorriso de escárnio, quando teve seu pensamento interrompido.

- O senhor pode entrar, se quiser, delegado. O senhor Caetano o convida para uma xícara de café.

Era uma proposta inusitada, pensou o delegado, e a surpresa deve ter transparecido em seu rosto. O advogado continuava com o mesmo sorriso, como se fosse garoto-propaganda de clinica odontológica ou de alguma empresa de óleo de peroba. O delegado perguntou-se o que mais ele poderia perder, além das horas de serviço dos membros de sua equipe jogadas fora por causa de um idiota do Supremo. Resolveu arriscar. Acompanhou o advogado, que teve o cuidado de fechar a porta. Entraram em um lobby grande, mas não ao ponto de ser extravagante. Pelo contrário, a decoração revelava muito bom gosto com as cores, espaços, móveis e objetos de decoração. Algumas obras de arte davam a impressão de que a construção ao redor é que as complementava e não o contrário. Atravessaram um salão onde o delegado pôde observar igual sintonia, mesmo com alguns objetos tecnológicos de ultima geração incluídos no ambiente. A sala de jantar possuia uma mesa para vinte pessoas e estava parcialmente posta com uma rica variedade de frutas, pães, sucos e queijos. Na cabeceira, um homem de cabelos brancos tomava uma xícara de algo bastante quente.

- Delegado Soares Júnior – sorriu entusiasmado enquanto se levantava e estendia a mão para cumprimentá-lo – estou agradecido por aceitar o meu convite. Espero que não fique chateado por ter tomado algumas precauções para que o nosso encontro ocorresse à minha maneira e não à sua. Sente-se, por favor, e me acompanhe no desjejum.

- Senhor Caetano, eu sou um cara curto e grosso, vim aqui para prendê-lo, não vejo como esta conversa pode beneficiar o senhor – respondeu o delegado enquanto sentava-se, assim como o advogado.

- Sei que o senhor quer me prender por causa do texto “Luva Branca precisa de você”, relacionando-o ao assassinato da presidenta. O que tenho curiosidade é saber como descobriu o meu nome, já que escrevi ele usando um pseudônimo.

- Subestima o poder investigativo da Polícia Federal, senhor. Um texto subversivo como o seu atrai alguns fãs. E alguns destes fãs são antigos, e o conhecem pessoalmente.

- Entendo. Mas já notou que o meu texto foi escrito há muitos anos, em outra época, quando o presidente era outro? E que se o texto reapareceu atualizado foi porque alguém o modificou para se encaixar em nossos dias atuais?

- E quem me garante que esse alguém não é o senhor?

O velho soltou uma gargalhada. – Exato, não posso garantir, delegado. O senhor é esperto, mas já pensou que talvez, desta vez, esteja indo atrás dos mocinhos da história?

- Não posso considerar como mocinho quem assassina uma presidenta.

- Mas eu não a matei, delegado. Quem a matou foi uma ideia, foi a filosofia contida no texto “Luva Branca precisa de você”.

- Então o senhor admite que tudo começou a partir do seu texto?

O advogado pigarreou e o velho sorriu trocando olhares com ele, como que respondendo que conhecia bem o terreno aonde estava pisando.

- Admito que escrevi um texto contra a corrupção. Um texto radical, que estimulava aos descontentes a usarem as ferramentas do terrorismo contra os verdadeiros terroristas em nosso país, os corruptos. Minha tese foi aplicar na prática o ditado norte-americano extreme times require extreme measures, adaptado do adágio latino extremis malis extrema remedia, atribuída por alguns ao médico Erasmo. Vivemos em épocas de corrupção extrema e a solução extrema que apontei para esta doença foi eliminar os corruptos. Se eles não se importam com a vida de seu povo, deixando-o morrer em corredores de hospitais por falta de recursos na área da saúde. Ou ser assaltado, estuprado, agredido e morto nas ruas por falta de investimentos em segurança para todos ou em educação para os menos favorecidos que não vêem outra chance de sobreviver a não ser como criminosos. A corrupção afeta diretamente a todos nós, delegado. Eu só apontei uma das forma de diminuí-la, lógica e utilizada há milhares de anos em vários lugares do mundo. Se alguém comprou a ideia, não sou o culpado.

- Para mim, isso soa como incentivo à prática criminosa – respondeu o delegado, colocando mais café em sua xícara.

- O senhor sabe que este argumento é muito falho no meu caso, tanto é que consegui derrubá-lo com o meu pedido de habeas corpus preventivo. Primeiro, escrevi um texto ficcional, que não pode ser usado contra mim por ser material artístico, cultural, apolítico e atemporal, mesmo que algum maluco o considere como sagrado e resolva aplicar literalmente as suas palavras. Segundo, porque o escrevi há muito tempo atrás, sem planejar nada contra ninguém, e qualquer crime prescreve com o tempo, mesmo que seja o de incentivo à prática criminosa, não? E, em terceiro lugar, só o fato de eu divulgar o texto contando o que poderia acontecer já é a minha própria defesa: nenhum assassino revela as suas intenções e planos publicamente.

Os olhos do delegado o traíam. Ele sabia de tudo aquilo, mesmo assim tivera de arriscar. Era a melhor pista que tinha até o momento, depois que o assassino da presidenta se suicidara após cometer o crime. Conseguiu vasculhar a vida do pobre diabo, mas só encontrou desgraças, havia perdido o emprego por causa da recessão, o filho de nove anos fora baleado em uma troca de tiros entre bandidos e polícia e a esposa não aguentando a situação fugira de casa. Boatos diziam que tinha morrido de desgosto. O homem conseguira a arma ilegal emprestada de algum amigo e viajara para Brasília, esperando alguma data festiva nacional em que pudesse se aproximar da presidenta. Trabalhava como pedreiro, comia e dormia quando e como dava. A sua raiva o sustentava, até que surgiu a oportunidade perfeita, uma festa comemorativa pela Seleção Brasileira ter ganho o campeonato de futebol. Quando a presidenta recebeu os jogadores na rampa do Palácio do Planalto e, de lá, todos se dirigiram à multidão para receberem os cumprimentos, em um momento de descuido dos seguranças em que o foco estava todo no time, o pedreiro atirador atirou à queima-roupa na presidenta e depois em si mesmo. Em seu bolso, somente um bilhete escrito “Luva Branca precisa de você”.

- O senhor está ciente de que existem vários grupos organizados se denominando como Luva Branca? Afirmam querer limparem a sujeira como uma empregada faria usando uma luva branca. Um deles até criou um website na internet para medir o nível de corrupção dos principais políticos brasileiros. Quanto mais votado pelos visitantes, mais no topo da lista de próximas vítimas em potencial ele aparece. Os que são eliminados aparecem com um xis em cima da fotografia. Até agora conseguimos identificar, além da presidenta, alguns deputados, um senador e vários vereadores e prefeitos pelo país. É esta a ideia de ordem que o senhor acha que vai colocar um fim à corrupção?

- Pelo jeito não sou só eu, delegado. Apesar de não ter relacionamento com nenhum destes grupos que o senhor citou, não posso dizer que discordo deles. Afinal, estão usando o processo democrático não só para colocar os políticos no poder, mas também para tirá-los de lá. Mas eu o chamei aqui não só para conversarmos, mas para fazer um convite ao senhor.

- Que convite?

- Convido-o à começar a pensar diferente à partir de hoje. Pense em um Brasil sem corruptos e corruptores. Em nosso país tendo todos os seus recursos aplicados em benefícios para à população e não desviados para fazendas de parentes de governantes no Pará e Mato Grosso, ou justificando ganhos milionários em empresas de ex-ministros, secretários ou laranjas. Pense que, enquanto alguém não tem nojo da corrupção ele pode vir a experimentá-la. O senhor conhece a anedota da pimenta?

- Não.

- Havia dois amigos, um tinha nojo de pimenta e outro não gostava. Um dia, viajando, resolveram almoçar em um pequeno restaurante de beira de estrada. Somente depois que serviram os seus pratos perceberam que em tudo havia pimenta. O que não gostava, por estar com muita fome, comeu mesmo assim. O que tinha nojo, só de chegar perto sentia o seu estômago repugnar-se. Resolveu que iria almoçar em outro restaurante mais à frente. Entendeu o meu ponto de vista? Enquanto os brasileiros não aprenderem a terem nojo da corrupção, ela fará parte da nossa realidade cotidiana. E por falar nisso, o senhor citou o website com a lista das próximas vítimas em potencial. Já viu em qual posição está o seu nome?

(texto escrito por Olavo Caetano)
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